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Existindo fora e acima da narrativa oficial, Deus encontrava prazer
em contestar as alegações de justiça e de suficiência das soluções
políticas toleradas ou admiradas pelos homens.
Parte essencial da imagem que o ocidente faz de si mesmo é que nos
consideramos desde sempre mais lúcidos e esclarecidos do que o resto do
mundo.
Por quase dois milênios o orgulho ocidental esteve fundamentado no
fato de sermos os legítimos bastiões da fé num mundo de resto cheio de
incrédulos e pagãos. Como não há narrativa sem paradoxo, hoje em dia nos
orgulhamos do contrário: de sermos aqueles que abandonaram as ilusões
da religião num mundo de resto cheio de crédulos e fanáticos.
Os abusos do Estado Islâmico servem, em particular, como lembrete do
quanto devemos nos congratular e dar tapinhas de aprovação nas costas
uns dos outros por termos abandonado as armadilhas do obscurantismo.
Veja o tipo de coisa em que acreditam esses caras, dizemos uns aos outros.
Lamentável
que sejam tão atrasados e não tenham abandonado como nós as ilusões da
religião. O mundo não vai ser um lugar seguro enquanto houver gente
dando crédito a esse tipo de crença sem fundamento.
Não há Deus além do mercado
Um dos problemas com essa convicção de superioridade é que ela também
se baseia numa fé sem fundamento. E pode haver ilusão maior do que
acreditar-se não iludido?
O século 20 entrou para a infâmia como o século das grandes e
tremendas ideologias. Por razões que perdemos quase a capacidade de
entender, as pessoas daquele continente perdido se permitiram acreditar
em coisas como o fascismo, o nazismo, o stalinismo e o nacionalismo –
grandes lorotas ideológicas que causaram toda sorte de injustiça,
opressão e morte, e proveram o combustível para um circular rosário de
guerras.
Entre as décadas de 1970 e 1990 solidificou-se a convicção de que as
barbaridades do século 20 haviam servido para vacinar a humanidade
ocidental contra o vírus de todas as ideologias. Nunca mais cairíamos em
armadilhas da estirpe do nazismo e do fascismo; nunca mais nos
permitiríamos a deliberada cegueira de seguir inferno adentro homens de
vendas como Hitler, Mussolini ou Stalin. Nenhum líder carismático e
nenhum elixir ideológico bastaria para nos seduzir ao fanatismo e nos
desviar do cinismo e da lucidez que havíamos adquirido.
Quem nos convenceu que estávamos vacinados contra todas as ideologias
foi, naturalmente, uma nova ideologia, a do capitalismo em sua estirpe
neoliberal. O neoliberalismo ou fundamentalismo de mercado é uma
modalidade extrema e fanática de capitalismo – tão ansiosa por converter
e tão distante da moderação quanto a modalidade de islamismo adotada
pelo Estado Muçulmano.
É uma ideologia como qualquer outra, porém mais insidiosa em que se
recusa categoricamente a admitir que é uma ideologia – e pode haver algo
mais ideológico do que afirmar-se não ideológico?
O neoliberalismo pede que creiamos, de um lado, que neste universo
nada realmente existe se não se puder vender ou comprar; de outro, pede
que acreditemos que quando todo recurso ao alcance do homem for
transformado em produto haverá justiça para todos. Na verdade, o dogma
não apenas alega (o que já seria incorreto, leia-se Marx ou Thomas
Piketty) que o livre mercado produz efetivamente a justiça; ele insiste
que a mão invisível/sobrenatural do mercado produz
a única forma justa de justiça que a humanidade chegará a conhecer na história das civilizações passadas, presentes e futuras.
Nenhuma ideia humana foi evangelizada mais eficazmente, nenhuma
desenhou para si uma narrativa mais totalizadora. Os monoteísmos eram
totalizadores mas apelavam para a fé; os impérios eram totalizadores mas
apelavam para a força. O capitalismo apela para o fim literal da
história, para a rejeição literal de quaisquer alternativas, para o
abandono literal de todas as narrativas competidoras. É o império dos
impérios, a ideologia das ideologias, o apocalipse feito produto, e seu
exército é invencível porque está onde houver um consumidor. Seu pão é o
consumo, seu circo o público espetáculo do consumo.
O crente no capitalismo – e quem a esta altura pode deixar de ser –
tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Nenhuma agressão e
nenhuma apropriação nos parecerá em qualquer caso excessiva, porque o
capitalismo deitou sobre toda agressão e toda apropriação o seu sagrado
selo de aprovação. Como estamos convictos de que para o capitalismo não
existem alternativas, tudo torna-se aceitável: a libertação entre aspas
do Iraque, a napalmização do cerrado brasileiro com pasto e soja, a
conversão da Amazônia em estacionamento de hambúrgueres, a transformação
da China em calabouço produtivo do mundo.
O curioso é que aprendemos a absolutamente não tolerar o
fundamentalismo e as reivindicações de supremacia na esfera da religião.
Qualquer tradição religiosa que se ouse afirmar a única alternativa
válida ou viável nos parecerá inerentemente obscena. Porém o que não
toleramos na religião toleramos, de modo duplamente contraditório, na
esfera secular. Somos os primeiros a professar em atos e palavras a fé
de que para o capitalismo de livre mercado – uma ideia, uma mera ideia,
uma ideia infeliz sem futuro e sem fundamento – não há alternativas.
A falta que Deus faz
De um lado, é um mundo em que todos no recinto que se consideram
gente grande se creem livres das ilusões da religião. Do outro, os que
sentem falta de Deus o fazem pelas razões mais mesquinhas e
superficiais.
É um desfecho no mínimo curioso para a tradição judaico-cristã, que
fundamentou-se desde sempre numa rigorosa polêmica contra as ilusões da
civilização.
As religiões da Antiguidade existiam para legitimar impérios,
ferramentas de dominação e estruturas de poder. Eram ferramenta
política, e ninguém se surpreendia que fossem; seus rituais e
cosmologias operavam uma ideologia a serviço das elites e do estado de
coisas. A exceção, a divina exceção, espreita na Bíblia da tradição
judaico-cristã, que manifesta do Gênesis ao Apocalipse um profundo
ceticismo diante daquilo que os homens consideram grande e seguro,
valioso e definitivo.
A Bíblia antecipa Marx, Sartre e Bernard Shaw na crueza do seu
pessimismo. Aquilo que os homens consideram ordenado, justificado e
inabalável, explicam as vozes bíblicas, é na verdade precário,
condicionado e está prestes a ruir. Aquilo que os ricos e poderosos
consideram justo e admirável, diz a Bíblia, você deve tomar por certo
que justo e admirável está longe de ser.
Em particular, o Deus da Bíblia provê uma
supranarrativa – uma versão da história que paira acima da narrativa oficial e desafia abertamente a sua supremacia.
Existindo fora e acima das narrativas oficiais, Deus serve para (e
encontra prazer em) contestar as alegações de justiça e de suficiência
de todas as soluções políticas toleradas ou admiradas pelos homens.
É da natureza dos impérios, a Bíblia alerta continuamente, fazer uso
de uma narrativa totalizadora. Três milênios antes que o seu professor
de esquerda mandasse você ler Eduardo Galeano, o Deus da Bíblia já
ensinava que as alegações totalizadoras dos impérios não passam de
discursos.
O império é do mal, mas vai explicar que é totalmente bom. O império é
ilegítimo, mas vai alegar absoluta legitimidade. O império é injusto,
mas vai se afirmar o grande promotor da justiça. O império vai se
declarar a melhor coisa que já aconteceu, mas o mesmo disseram todos os
impérios antes dele.
O império reluz como ouro, mas tem pés de barro.
De sua posição privilegiada acima da narrativa oficial, o Deus da
Bíblia faz consistentemente a coisa mais surpreendente de todas, coisa
tão revolucionária nos nossos dias quanto foi há três milênios: fala
contra o império em nome dos oprimidos por ele.
Aqui reside, afinal de contas, a força do Êxodo, a história
libertação do povo de Israel da servidão no Egito pela intervenção de
Moisés. Como todos os representantes do império (porque todos os
impérios são um só), o faraó esmagava aliados e oponentes debaixo de uma
narrativa totalizadora de poder e legitimação. Sendo oficial e
totalizador, o discurso do império produzia em tudo de humano que tocava
(até mesmo no faraó) uma opressão da qual parecia impossível escapar.
A solução divina para a sujeição universal à narrativa imperial é a
supranarrativa. A supranarrativa é a esfera de operação de Deus, o único
personagem da novela não encarcerado pela narrativa oficial. A mera
existência de Deus cria um espaço de manobra para que as políticas do
estado e o próprio estado sejam severamente criticados.
A grande novidade da história do Êxodo, portanto, não é demonstrar o
poder de Deus (o que acabaria reduzindo a supranarrativa a uma nova
narrativa oficial). Sua subversão está em demonstrar de um lado a
contingência do poder de todos os impérios, de outro a legitimidade do
anseio do oprimido por justiça neste mundo e nesta vida.
O faraó aprende, e o leitor com ele, que a supranarrativa não há como
contornar. Enquanto houver na Terra quem acredite que há algo mais
legítimo do que o império, inteiramente legítimo o império nunca vai
ser. Em termos estritos Deus não precisa sequer existir, ou basta que
Deus exista nos clamores humanos por amor, igualdade e justiça.
Uma vez articulada a supranarrativa, uma vez que Deus tenha a
liberdade ou a função de zombar do império e colocar em dúvida a sua
suficiência, as alegações totalizadoras da supremacia imperial vêm
abaixo imediatamente. Deus faz nascer a perspectiva, a perspectiva faz
nascer a esperança, a esperança faz nascer o clamor por justiça – e do
clamor por justiça brotam o confronto, a revolução e a reviravolta. O
arbusto não precisa de outro combustível para começar a arder. A mera
articulação da supranarrativa – que alguém ouse contar a história a
partir do ponto de vista de Deus – serve para desencadear o processo.
O Êxodo é exemplar, mas Bíblia adentro a supranarrativa serve para
desarmar as narrativas totalizadoras de um governo atrás do outro – até
mesmo dos governos de Judá e de Israel . Deus é o observador cético da
operação de todos os estados, o crítico social de todas as narrativas
oficiais.
O império assírio, o império babilônico, o império romano – a Bíblia
trabalha para anular os discursos totalizadores de cada um desses
impérios, e oferece leituras cada vez mais críticas de suas operações e
de sua legitimidade.
A supranarrativa oferecida e desencadeada por Jesus é por certo a
mais devastadora e radical. O Pai de Jesus paira acima e além de todas
as soluções políticas concebidas pelo ser humano. Ele não reconhece a
legitimidade da monarquia, da democracia, da meritocracia, até mesmo da
anarquia, porque todas essas soluções esbarram no detalhe – para ele
inaceitável – de não serem o governo do amor e da graça, em que os
prêmios são distribuídos pelo rígido critério do critério algum. No Novo
Testamento a perversidade totalizadora do império só é corrigida pela
instauração sempre interina do reino de Deus, o domínio em que governam
não exércitos ou discursos mas o amor, que é despoder.
Um império sem uma supranarrativa
O capitalismo neoliberal é o maior império que o ocidente já ofereceu
ao planeta, e é também o primeiro a não ser temperado por uma
supranarrativa. Não acreditamos mais em Deus, pelo que não concebemos
nada que se poste acima do capitalismo para efetivamente zombar dele,
denunciar a sua ilegitimidade e clamar por justiça aos seus oprimidos.
Deixamos de crer não apenas em Deus: deixamos de acreditar que para o
império vigente existam verdadeiras alternativas. O império agradece.
A coisa que mais se assemelha a uma alternativa ao capitalismo é o
socialismo, mas o socialismo é uma narrativa paralela, não uma
verdadeira supranarrativa.
Contra o fundamentalismo de mercado uma narrativa paralela – um
discurso alternativo, por mais lúcido e bem articulado que seja – não
bastará jamais, porque o capitalismo é um morto-vivo que se apropria de
tudo que se coloca no seu caminho, até mesmo os seus antagonistas, e
reverte em seu favor a diferença de potencial. O capitalismo na verdade
se beneficia da existência do socialismo como alternativa, e faz uso
dele do mesmo modo que usa toda forma de concorrência ou de crítica: de
modo a se legitimar.
Não sendo um discurso, a supranarrativa divina não se prestaria a
esse tipo de apropriação. Porém deixamos de acreditar em Deus, deixamos
de imaginar a perspectiva divina e de sonhar com ela, deixamos de dar
ouvidos à divina crítica à comédia humana. A supranarrativa não
representa um perigo para o capitalismo.
Nem mesmo os que acreditam em Deus, bem entendido, sentem-se compelidos a exercer a vocação divina à subversão política.
O islamismo tem a desvantagem de conter em si mesmo uma proposta
política, um modelo de estado e de organização. O islamismo é capaz de
criticar ocasionalmente o capitalismo mas, ao contrário do cristianismo
bíblico, não está armado – não tem espaço de manobra – para criticar
toda e qualquer organização política. Tendo a sua própria narrativa para
defender, não está em condições de oferecer contra o império uma
supranarrativa.
Os cristãos, que poderiam fazer diferente, não representam ameaça. A
maior parte acompanha os evangélicos/republicanos norte-americanos em
prestar irrestrita adoração ao capitalismo. Em vez de criticarem a
própria natureza e a legitimidade do sistema, gastam tempo com polêmicas
rasas e condicionadas, e suas intolerâncias e melindres alimentam os
demônios do fascismo e do nacionalismo.
Os católicos estão mais próximos de fundamentar na divina perspectiva
uma crítica ao capitalismo; veja-se por exemplo as posturas recentes do
papa Francisco. Porém o capitalismo se defende negando a legitimidade
da supranarrativa oferecida pelo papa e colocando em dúvida a
sinceridade da sua fé. Não é que católicos como Francisco acreditam num
Deus acima do capitalismo, afirmam os neoliberais; é que Francisco, por
estupidez ou por maldade, acredita nas ilusões do comunismo (pouco
importa que a ideia de que ninguém é melhor do que ninguém tenha sido
cristã muito antes de ter sido comunista).
Desse modo o capitalismo prossegue mastigando os ossos do mundo,
tendo já consumido as suas carnes, sem que qualquer supranarrativa se
intervenha para oferecer perspectiva e esperança, e a partir dessas
coisas a justiça.
Porque, se existisse, Deus estaria dizendo que os ricos e poderosos
que você se sente tentado a invejar são na verdade canalhas e
exploradores em situação precaríssima. Estaria dizendo que o capitalismo
neoliberal, o sistema político-econômico que se afirma o mais justo já
operado entre os homens, não passa de um império: um império maldito,
ridículo, ilegítimo e perverso, que nada promove além de injustiça,
desigualdade, destruição e opressão. Estaria dizendo ai dos ricos porque
são demônios, e felizes dos pobres porque podem pelo menos dormir com a
consciência limpa. Estaria dizendo que o reino de Deus é o domínio
diametralmente oposto ao império da ganância e das explorações.
Estaria dizendo: bem-aventurados os que não consomem, porque não serão consumidos.
Curiosíssimo é que o Novo Testamento afirma, incrivelmente, quase
blasfemamente, que Deus é amor. Sendo um ponto de vista, uma escolha e
uma perspectiva, o amor pode sempre oferecer uma supranarrativa.
Talvez o Novo Testamento esteja certo, e Deus talvez não esteja no
céu, mas no coração dos homens e mulheres de boa vontade. Talvez o reino
do céu seja o reino da plena graça e igualdade na terra. Se Deus é
amor, como está escrito em todas as Bíblias do planeta, acreditar em
Deus tem de ser, pelo menos um pouco, acreditar no amor.
Deus então pode ser, e pode sempre ter sido, o espaço de manobra que
se abre no coração de quem ousa conceber solução mais elevada do que o
império. Se Deus é amor, pode muito bem não ter desejado existir em
outra forma."
(
Paulo Brabo, em sua "
Forja Universal")