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sábado, 31 de agosto de 2019

Melô do bolsominion

Por incrível que pareça, procurei essa canção pelo YouTube e Google inteiros e não achei!!! (que vexame, hein, Google!!!)
Quando moleque, década de 60, gostava de uma música da Jovem Guarda, acho que cantada suave pela Wanderlea (não tenho certeza), que dizia assim:
"Tal como é, vazio e sem fé, indiferente, mau para mim... amo, e gosto dele assim, assim, assim..."

Tem melhor descrição de um bolsominion do que essa canção? Tem não!!!!! 😜 

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Culpa e Amazônia

"Apesar de defender a proteção da Amazônia, a Europa tem sua parcela de culpa na redução da cobertura florestal no Brasil ao aumentar as importações de produtos brasileiros considerados vilões do desmatamento, como a carne. 
Essa é a opinião da alemã Carina Zell-Ziegler, especialista em energia e clima do Öko-Institut, instituto de pesquisa ambiental do setor privado sem fins lucrativos sediado na Alemanha."
(do BBC News Brasil de hoje)

Medicina e Fé

Tenho visto muitos, mas muitos mesmo, casos de gripe simples serem tratadas pelos "doutores", com antibióticos. 
A burrice é tamanha que só me resta imaginar que esses "médicos" tem fé nos antibióticos... fé tal e qual a dos religiosos fundamentalistas: uma merda!

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Bando de Cafonas - texto de Fernanda Young

Este texto não estava na minha lista de publicações, mas é impossível não prestar um homenagem singela a quem teve a perspicácia de escrever algo assim:

Bando de cafonas
Por Fernanda Young, no O Globo (26/08/2019)

A Amazônia em chamas, a censura voltando, a economia estagnada, e a pessoa quer falar de quê? Dos cafonas. Do império da cafonice que nos domina. Não exatamente nas roupas que vestimos ou nas músicas que escutamos – a pessoa quer falar do mau gosto existencial. Do que há de cafona na vulgaridade das palavras, na deselegância pública, na ignorância por opção, na mentira como tática, no atraso das ideias.

O cafona fala alto e se orgulha de ser grosseiro e sem compostura. Acha que pode tudo e esfrega sua tosquice na cara dos outros. Não há ética que caiba a ele. Enganar é ok. Agredir é ok. Gentileza, educação, delicadeza, para um convicto e ruidoso cafona, é tudo coisa de maricas.

O cafona manda cimentar o quintal e ladrilhar o jardim. Quer todo mundo igual, cantando o hino. Gosta de frases de efeito e piadas de bicha. Chuta o cachorro, chicoteia o cavalo e mata passarinho. Despreza a ciência, porque ninguém pode ser mais sabido que ele. É rude na língua e flatulento por todos os seus orifícios. Recorre à religião para ser hipócrita e à brutalidade para ser respeitado.

A cafonice detesta a arte, pois não quer ter que entender nada. Odeia o diferente, pois não tem um pingo de originalidade em suas veias. Segura de si, acha que a psicologia não tem necessidade e que desculpa não se pede. Fala o que pensa, principalmente quando não pensa. Fura filas, canta pneus e passa sermões. A cafonice não tem vergonha na cara.

O cafona quer ser autoridade, para poder dar carteiradas. Quer vencer, para ver o outro perder. Quer ser convidado, para cuspir no prato. Quer bajular o poderoso e debochar do necessitado. Quer andar armado. Quer tirar vantagem em tudo. Unidos, os cafonas fazem passeatas de apoio e protestos a favor. Atacam como hienas e se escondem como ratos.

Existe algo mais brega do que um rico roubando? Algo mais chique do que um pobre honesto? É sobre isso que a pessoa quer falar, apesar de tudo que está acontecendo. Porque só o bom gosto pode salvar este país.

Democracia morta, segundo Steven Levitsky

"A via eleitoral para o colapso é perigosamente enganosa. Com um golpe de Estado clássico, como no Chile de Pinochet, a morte da democracia é imediata e evidente para todos. O palácio presidencial arde em chamas. O presidente é morto, aprisionado ou exilado. A Constituição é suspensa ou abandonada. Na via eleitoral, nenhuma dessas coisas acontece. Não há tanques nas ruas. Constituições e outras instituições nominalmente democráticas restam vigentes. As pessoas ainda votam. Autocratas eleitos mantêm um verniz de democracia enquanto corroem a sua essência. 

Muitos esforços do governo para subverter a democracia são “legais”, no sentido de que são aprovados pelo Legislativo ou aceitos pelos tribunais. Eles podem até mesmo ser retratados como esforços para aperfeiçoar a democracia – tornar o Judiciário mais eficiente, combater a corrupção ou limpar o processo eleitoral. Os jornais continuam a ser publicados, mas são comprados ou intimidados e levados a se autocensurar. Os cidadãos continuam a criticar o governo, mas muitas vezes se veem envolvidos em problemas com impostos ou outras questões legais. Isso cria perplexidade e confusão nas pessoas. Elas não compreendem imediatamente o que está acontecendo. Muitos continuam a acreditar que estão vivendo sob uma democracia."
Steven Levitsky, em "Como as Democracias Morrem" (obrigado, Obadias de Deus, pela dica)

domingo, 25 de agosto de 2019

Observar e absorver: Em cima do muro?


"Tem quem diga que estou em cima do muro porque não voto. Visão superficial de quem só vê os dois lados. Eu me sinto no centro de um círculo e posso caminhar na direção que minha consciência decidir. Não me vejo em cima de muro porque não vejo só dois lados pra pular. Que pulem os que pensam assim, escolham seus lados. Na minha visão, é pura indução midiática, cultural, comportamental, da natureza de uma sociedade competitiva, superficial e estrategicamente enraizada no inconsciente coletivo, adaptadas às mentalidades antagônicas, criadas pra dar a ilusão de que se muda alguma coisa desse jeito. 
Os banqueiros, em suas fortalezas, dão risada.
Não é só não votar, é não ter patrão nem empregado, é detestar ostentação de luxos e consumos "de elite", é não desejar mais do que se precisa, é ter vergonha de privilégios da riqueza, é respeitar o modo de ser dos outros, é olhar com igualdade mesmo pras diferenças. É querer pouco e reconhecer a própria pequeneza diante do todo e grandeza diante de si mesmo. É gostar do respeito alheio, mas não abrir mão do próprio. É ouvir a própria consciência acima da própria conveniência. Essas são algumas posições que aplico em minha vida. Sem querer posar de exemplo ou dar conselho a ninguém. 
Não é o que acho certo, é só o MEU certo.
Cada um com sua própria consciência. E sem cobranças."
(Eduardo Marinho, um dos mais instigantes pensadores brasileiros, um verdadeiro subversivo)

sábado, 24 de agosto de 2019

Desigualdade crescente

DESIGUALDADES DE RENDA NO BRASIL E NO MUNDO

por Amir Khair (19/08/2019)

"Desde a década de 80, a desigualdade de renda aumenta em quase todo o mundo, mas com velocidades diferentes. É a conclusão do relatório “World Inequality Report 2018”. O estudo aponta que as variações na desigualdade em economias com graus de desenvolvimento similares evidenciam a importância das políticas públicas e das instituições.
Em 2016, a participação dos 10% mais ricos no total da renda nacional correspondia a 37% na Europa, 41% na China, 46% na Rússia, 47% nos Estados Unidos e Canadá, e em torno de 55% no Brasil. O Oriente Médio é a região mais desigual, na qual os 10% mais ricos detém, em média, 61% da renda total.
O estudo classifica o Brasil entre os países da “fronteira da desigualdade”, um termo que engloba os países em que a desigualdade se manifesta de forma mais intensa, o que inclui a Índia e a África do Sul.
Diferentes dos Países Desenvolvidos, principalmente os da Europa Ocidental, países como o Brasil não passaram por políticas voltadas para o bem-estar social e o pleno emprego, que caracterizaram o pós-guerra. Os ditos anos gloriosos do capitalismo, da década de 50 a 80, no qual as economias desenvolvidas cresceram de forma acelerada com redução das desigualdades.
O relatório destaca a diferença do ritmo do aumento das desigualdades entre os Estados Unidos e os Países da Europa Ocidental, que até a década de 80 tinham níveis similares, com o 1% de renda superior com apropriação de 10% da renda total. Em 2016, na Europa Ocidental a participação subiu para 12%, e nos Estados Unidos o 1% mais rico passou a capturar 20% da renda total.
Em termos comparativos, segundo o relatório “Bem Público ou Riqueza Privada?”, divulgado pela OXFAM no início do ano, na América Latina e Caribe a parcela de 1% mais rica detém, em média, 40% da riqueza total. No Brasil, o 1% mais rico detém 27,8% da renda nacional.
Dados da pesquisa “Rendimento de todas as fontes” (2017), elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelaram que os 10% da população com os maiores rendimentos ficavam com 43,3% do total da renda. Enquanto os 10% menores rendimentos detinham apenas 0,7% da renda.
Diferente dos países na “fronteira da desigualdade”, que como o Brasil sempre tiveram uma alta desigualdade de renda, os países da Europa Ocidental e Estados Unidos vem ampliando a desigualdade a partir de 1980, mas por que em diferentes ritmos?
O relatório “World Inequality Report 2018” explica que a ampliação da desigualdade de renda observada nos Estados Unidos é em grande parte determinada pelas expressivas desigualdades educacionais, combinadas com alterações no sistema tributário que o tornaram menos progressivo. Enquanto na Europa Ocidental, no mesmo período, ocorreu um declínio menor na progressividade do sistema tributário, políticas educacionais universalizantes e fixação de salários de base que preservaram a renda de grupos de baixa e renda média. Outro fator determinante foi a transferência de riqueza pública para o setor privado, que ocorreu de forma mais acentuada nos EUA.
Em estudo recente da Fundação Getúlio Vargas (FGV), “Escalada da Desigualdade”, aponta que há quatro anos a desigualdade de renda não para de subir. Enquanto a renda do trabalho da metade mais pobre da população caiu 17,1%, a renda dos 1% mais ricos subiu 10,1% e a renda da classe média (posicionada entre os 40% intermediários) teve queda de 4,2%.
No enfrentamento das desigualdades de renda, o relatório “World Inequality Report 2018” destaca a importância de políticas de renda, sistema tributário progressivo, o acesso democrático ao sistema educacional, mas combinado com políticas de fixação de salário mínimo que possibilitem o melhor ingresso no mundo do trabalho.
No Brasil, com uma desigualdade crônica que se agrava com a estagnação econômica, as políticas preconizadas para o combate às desigualdades de renda, são ao mesmo tempo essências a retomada do crescimento econômico."

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

No surprise

No surprise.

Como disse o Veríssimo em um texto de hoje, tudo volta ao normal no quintal, a que chamam Brasil.

Seus legítimos donos estão providenciando a reintegração de posse daquilo que lhes pertence por direito divino, desde um longínquo abril de 1500.

Sim, porque desde ali, isto aqui passou a ter donos de verdade e o povo que por aqui havia foi empurrado para os grotões, saqueado, humilhado e dizimado.

Certo que de tempos em tempos, algum zé povinho se mete a besta e tenta botar as manguinhas de fora, querendo um naco de suas posses.

Mas os donos legítimos do Brasil logo mostram a esse zé povinho quem manda nesta josta.

Onde já se viu ralé querer governar???

O nosso glorioso judiciário, como instituição, sempre foi braço dos donos do Brasil. Sempre lhes deu respaldo. SEMPRE.

Não haveria de ser diferente em 24/01/2018.

Se não são tempos de exército, pra que manter um judiciário que tanto custa? Que arranjem um triplex qualquer e provas indiciárias e depoimentos de ouvi dizer. Mas resolvam isto!

Pronto.

Quase consumatum est.

Certo que ainda falta acorrentar o Nove Dedos e exibi-lo à execração pública no JN [Jornal Nacional].

Mas, a casa grande já está providenciando isto. Não vai demorar.

Ao povo do Brasil, só resta agora ir subversando nas trevas, aqui e acolá, na esperança, que nunca morre, de que algum dia, um zé povinho surja novamente, com suas tochas incendiárias.

Por enquanto, fiquemos com as provas indiciárias.

Como réquiem do velório de ontem, transcrevo o discurso de um zé povinho retratado em "Viva o povo brasileiro", de João Ubaldo Ribeiro. É só o que posso lhes dizer neste momento.

Em 1897, logo após a proclamação da República, respondendo a uma pergunta do pai, sobre o que ele fazia, um zé povinho metido a besta da época responde:

"Faço revolução, meu pai. Desde minha mãe, desde antes de minha mãe até, que buscamos uma consciência do que somos. Antes, não sabíamos nem que buscávamos alguma coisa. Apenas nos revoltávamos. .... Hoje sabemos que buscamos essa consciência e estamos encontrando essa consciência. Não temos armas que vençam a opressão e jamais teremos... Nossa arma há de ser a cabeça. A cabeça de cada um e de todos, que não pode ser dominada... Nosso objetivo não é bem a igualdade, é mais a justiça, a liberdade, o orgulho, a dignidade, a boa convivência. Isto é uma luta que trespassará os séculos, porque os inimigos são muito fortes. A chibata continua, a pobreza aumenta, nada mudou. A Abolição não aboliu a escravidão, criou novos escravos. A República não aboliu a opressão, criou novos opressores. O povo não sabe de si... e tudo o que faz não é visto e somente lhe ensinam o desprezo por si mesmo, por sua fala, por sua aparência, pelo que come, pelo que veste, pelo que é. Mas nós estamos fazendo essa revolução de pequenas e grandes batalhas, umas sangrentas, outras surdas, outras secretas, e é isto que eu faço, meu pai".

Então, nada a mais a dizer, a não ser que sem sangue, não se faz revolução. E reformas, somente são aceitas as reformas do tipo Temer: da CLT, da Previdência... Para a ralé deixar de sonhar e querer um naco maior do Brasil deles.

Tem uns zés povinhos por aí dizendo que a luta continua.

A ver.

​Baianinho​ [meu querido Reginaldo Leão]

terça-feira, 18 de julho de 2017

O Mal e a Personificação do Mal

O mais comum nas redes sociais atualmente é a referência a pessoas como se elas fossem o Mal encarnado.

Há muitas pessoas que acusam Lula de ser um "lixo", o "chefe da quadrilha", o "responsável pela ruína do país", um "verme", e por aí vai.

Não tenho nenhuma ligação com o Lula. Votei nele algumas vezes, discordei deles muita vezes. Não acho que seja um santo e tenho severas críticas ao seu governo e de sua sucessora na presidência.

Sou a favor da investigação e responsabilização dos autores de qualquer irregularidade que prejudique a sociedade, não importando cargo, partido, situação financeira, "status" social.

O que não aceito passivamente é a classificação de alguém como "lixo", enquanto deixamos toda a classe política e empresarial de fora desse "lixo", demonizando uma pessoa e tornando todos os outros, "santos".

Não importa se é o Bolsonaro ou o Lula, você ou eu. Ninguém é "o demônio" sozinho. Somos responsáveis pela existência dos "Bolsonaros" e "Lulas" deste mundo, quando somos incompetentes em assumir as rédeas do nosso destino e permitimos um sistema socioeconômico e político mesquinho, perverso e corruptor vigorar no país.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Porrada! E você "vai levando"...

"Não adianta olhar pro céu
Com muita fé e pouca luta
Levanta aí que você tem muito protesto pra fazer
E muita greve, você pode, você deve, pode crer
Não adianta olhar pro chão
Virar a cara pra não ver
Se liga aí que te botaram numa cruz e só porque Jesus
Sofreu não quer dizer que você tenha que sofrer!
Até quando você vai ficar usando rédea?!
Rindo da própria tragédia
Até quando você vai ficar usando rédea?!
Pobre, rico ou classe média
Até quando você vai levar cascudo mudo?
Muda, muda essa postura
Até quando você vai ficando mudo?
muda que o medo é um modo de fazer censura

Até quando você vai levando? (Porrada! Porrada!!)
Até quando vai ficar sem fazer nada?
Até quando você vai levando? (Porrada! Porrada!!)
Até quando vai ser saco de pancada?

Você tenta ser feliz, não vê que é deprimente
O seu filho sem escola, seu velho tá sem dente
Cê tenta ser contente e não vê que é revoltante
Você tá sem emprego e a sua filha tá gestante
Você se faz de surdo, não vê que é absurdo
Você que é inocente foi preso em flagrante!
É tudo flagrante! É tudo flagrante!!

A polícia
Matou o estudante
Falou que era bandido
Chamou de traficante!
A justiça
Prendeu o pé-rapado
Soltou o deputado
E absolveu os PMs de Vigário!

A polícia só existe pra manter você na lei
Lei do silêncio, lei do mais fraco
Ou aceita ser um saco de pancada ou vai pro saco
A programação existe pra manter você na frente
Na frente da TV, que é pra te entreter
Que é pra você não ver que o programado é você!
Acordo, não tenho trabalho, procuro trabalho, quero trabalhar
O cara me pede o diploma, não tenho diploma, não pude estudar
E querem que eu seja educado, que eu ande arrumado, que eu saiba falar
Aquilo que o mundo me pede não é o que o mundo me dá
Consigo um emprego, começa o emprego, me mato de tanto ralar
Acordo bem cedo, não tenho sossego nem tempo pra raciocinar
Não peço arrego, mas onde que eu chego se eu fico no mesmo lugar?
Brinquedo que o filho me pede, não tenho dinheiro pra dar!
Escola! Esmola!
Favela, cadeia!
Sem terra, enterra!
Sem renda, se renda! Não! Não!!

Muda que quando a gente muda o mundo muda com a gente
A gente muda o mundo na mudança da mente
E quando a mente muda a gente anda pra frente
E quando a gente manda ninguém manda na gente!
Na mudança de atitude não há mal que não se mude nem doença sem cura
Na mudança de postura a gente fica mais seguro
Na mudança do presente a gente molda o futuro!

Até quando você vai ficar levando porrada,
até quando vai ficar sem fazer nada
Até quando você vai ficar de saco de pancada?
Até quando?"
(Gabriel, o Pensador. Veja o clipe AQUI)

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Ingenuidade?

"Melinda Gates comanda a maior fundação de filantropia do planeta e faz a cabeça de bilionários como Mark Zuckerberg, Warren Buffet e Larry Ellison para doarem suas fortunas a causas humanitárias. Ela conta à DINHEIRO como, ao lado do marido Bill Gates, está ajudando a forjar um novo modelo de capitalismo que já salvou a vida de 5 milhões de crianças." (revista "Isto é Dinheiro", capa, out/16)
Não sei se a ingenuidade é minha ou dela, ou da revista, mas achar que existe um modelo de capitalismo que salve vidas (em lugar do atual, que mata), e que as milhões de crianças salvas o foram pelo capitalismo (sem perceber que foi o capitalismo que as condenou, em primeiro lugar) é um exagero... Né não?

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

A Falta que Deus Faz

"Existindo fora e acima da narrativa oficial, Deus encontrava prazer em contestar as alegações de justiça e de suficiência das soluções políticas toleradas ou admiradas pelos homens.

Parte essencial da imagem que o ocidente faz de si mesmo é que nos consideramos desde sempre mais lúcidos e esclarecidos do que o resto do mundo.
Por quase dois milênios o orgulho ocidental esteve fundamentado no fato de sermos os legítimos bastiões da fé num mundo de resto cheio de incrédulos e pagãos. Como não há narrativa sem paradoxo, hoje em dia nos orgulhamos do contrário: de sermos aqueles que abandonaram as ilusões da religião num mundo de resto cheio de crédulos e fanáticos.
Os abusos do Estado Islâmico servem, em particular, como lembrete do quanto devemos nos congratular e dar tapinhas de aprovação nas costas uns dos outros por termos abandonado as armadilhas do obscurantismo. Veja o tipo de coisa em que acreditam esses caras, dizemos uns aos outros. Lamentável que sejam tão atrasados e não tenham abandonado como nós as ilusões da religião. O mundo não vai ser um lugar seguro enquanto houver gente dando crédito a esse tipo de crença sem fundamento.

Não há Deus além do mercado

Um dos problemas com essa convicção de superioridade é que ela também se baseia numa fé sem fundamento. E pode haver ilusão maior do que acreditar-se não iludido?
O século 20 entrou para a infâmia como o século das grandes e tremendas ideologias. Por razões que perdemos quase a capacidade de entender, as pessoas daquele continente perdido se permitiram acreditar em coisas como o fascismo, o nazismo, o stalinismo e o nacionalismo – grandes lorotas ideológicas que causaram toda sorte de injustiça, opressão e morte, e proveram o combustível para um circular rosário de guerras.
Entre as décadas de 1970 e 1990 solidificou-se a convicção de que as barbaridades do século 20 haviam servido para vacinar a humanidade ocidental contra o vírus de todas as ideologias. Nunca mais cairíamos em armadilhas da estirpe do nazismo e do fascismo; nunca mais nos permitiríamos a deliberada cegueira de seguir inferno adentro homens de vendas como Hitler, Mussolini ou Stalin. Nenhum líder carismático e nenhum elixir ideológico bastaria para nos seduzir ao fanatismo e nos desviar do cinismo e da lucidez que havíamos adquirido.
Quem nos convenceu que estávamos vacinados contra todas as ideologias foi, naturalmente, uma nova ideologia, a do capitalismo em sua estirpe neoliberal. O neoliberalismo ou fundamentalismo de mercado é uma modalidade extrema e fanática de capitalismo – tão ansiosa por converter e tão distante da moderação quanto a modalidade de islamismo adotada pelo Estado Muçulmano.
É uma ideologia como qualquer outra, porém mais insidiosa em que se recusa categoricamente a admitir que é uma ideologia – e pode haver algo mais ideológico do que afirmar-se não ideológico?
O neoliberalismo pede que creiamos, de um lado, que neste universo nada realmente existe se não se puder vender ou comprar; de outro, pede que acreditemos que quando todo recurso ao alcance do homem for transformado em produto haverá justiça para todos. Na verdade, o dogma não apenas alega (o que já seria incorreto, leia-se Marx ou Thomas Piketty) que o livre mercado produz efetivamente a justiça; ele insiste que a mão invisível/sobrenatural do mercado produz a única forma justa de justiça que a humanidade chegará a conhecer na história das civilizações passadas, presentes e futuras.
Nenhuma ideia humana foi evangelizada mais eficazmente, nenhuma desenhou para si uma narrativa mais totalizadora. Os monoteísmos eram totalizadores mas apelavam para a fé; os impérios eram totalizadores mas apelavam para a força. O capitalismo apela para o fim literal da história, para a rejeição literal de quaisquer alternativas, para o abandono literal de todas as narrativas competidoras. É o império dos impérios, a ideologia das ideologias, o apocalipse feito produto, e seu exército é invencível porque está onde houver um consumidor. Seu pão é o consumo, seu circo o público espetáculo do consumo.
O crente no capitalismo – e quem a esta altura pode deixar de ser – tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. Nenhuma agressão e nenhuma apropriação nos parecerá em qualquer caso excessiva, porque o capitalismo deitou sobre toda agressão e toda apropriação o seu sagrado selo de aprovação. Como estamos convictos de que para o capitalismo não existem alternativas, tudo torna-se aceitável: a libertação entre aspas do Iraque, a napalmização do cerrado brasileiro com pasto e soja, a conversão da Amazônia em estacionamento de hambúrgueres, a transformação da China em calabouço produtivo do mundo.
O curioso é que aprendemos a absolutamente não tolerar o fundamentalismo e as reivindicações de supremacia na esfera da religião. Qualquer tradição religiosa que se ouse afirmar a única alternativa válida ou viável nos parecerá inerentemente obscena. Porém o que não toleramos na religião toleramos, de modo duplamente contraditório, na esfera secular. Somos os primeiros a professar em atos e palavras a fé de que para o capitalismo de livre mercado – uma ideia, uma mera ideia, uma ideia infeliz sem futuro e sem fundamento – não há alternativas.

A falta que Deus faz

De um lado, é um mundo em que todos no recinto que se consideram gente grande se creem livres das ilusões da religião. Do outro, os que sentem falta de Deus o fazem pelas razões mais mesquinhas e superficiais.
É um desfecho no mínimo curioso para a tradição judaico-cristã, que fundamentou-se desde sempre numa rigorosa polêmica contra as ilusões da civilização.
As religiões da Antiguidade existiam para legitimar impérios, ferramentas de dominação e estruturas de poder. Eram ferramenta política, e ninguém se surpreendia que fossem; seus rituais e cosmologias operavam uma ideologia a serviço das elites e do estado de coisas. A exceção, a divina exceção, espreita na Bíblia da tradição judaico-cristã, que manifesta do Gênesis ao Apocalipse um profundo ceticismo diante daquilo que os homens consideram grande e seguro, valioso e definitivo.
A Bíblia antecipa Marx, Sartre e Bernard Shaw na crueza do seu pessimismo. Aquilo que os homens consideram ordenado, justificado e inabalável, explicam as vozes bíblicas, é na verdade precário, condicionado e está prestes a ruir. Aquilo que os ricos e poderosos consideram justo e admirável, diz a Bíblia, você deve tomar por certo que justo e admirável está longe de ser.
Em particular, o Deus da Bíblia provê uma supranarrativa – uma versão da história que paira acima da narrativa oficial e desafia abertamente a sua supremacia.
Existindo fora e acima das narrativas oficiais, Deus serve para (e encontra prazer em) contestar as alegações de justiça e de suficiência de todas as soluções políticas toleradas ou admiradas pelos homens.
É da natureza dos impérios, a Bíblia alerta continuamente, fazer uso de uma narrativa totalizadora. Três milênios antes que o seu professor de esquerda mandasse você ler Eduardo Galeano, o Deus da Bíblia já ensinava que as alegações totalizadoras dos impérios não passam de discursos.
O império é do mal, mas vai explicar que é totalmente bom. O império é ilegítimo, mas vai alegar absoluta legitimidade. O império é injusto, mas vai se afirmar o grande promotor da justiça. O império vai se declarar a melhor coisa que já aconteceu, mas o mesmo disseram todos os impérios antes dele.
O império reluz como ouro, mas tem pés de barro.
De sua posição privilegiada acima da narrativa oficial, o Deus da Bíblia faz consistentemente a coisa mais surpreendente de todas, coisa tão revolucionária nos nossos dias quanto foi há três milênios: fala contra o império em nome dos oprimidos por ele.
Aqui reside, afinal de contas, a força do Êxodo, a história libertação do povo de Israel da servidão no Egito pela intervenção de Moisés. Como todos os representantes do império (porque todos os impérios são um só), o faraó esmagava aliados e oponentes debaixo de uma narrativa totalizadora de poder e legitimação. Sendo oficial e totalizador, o discurso do império produzia em tudo de humano que tocava (até mesmo no faraó) uma opressão da qual parecia impossível escapar.
A solução divina para a sujeição universal à narrativa imperial é a supranarrativa. A supranarrativa é a esfera de operação de Deus, o único personagem da novela não encarcerado pela narrativa oficial. A mera existência de Deus cria um espaço de manobra para que as políticas do estado e o próprio estado sejam severamente criticados.
A grande novidade da história do Êxodo, portanto, não é demonstrar o poder de Deus (o que acabaria reduzindo a supranarrativa a uma nova narrativa oficial). Sua subversão está em demonstrar de um lado a contingência do poder de todos os impérios, de outro a legitimidade do anseio do oprimido por justiça neste mundo e nesta vida.
O faraó aprende, e o leitor com ele, que a supranarrativa não há como contornar. Enquanto houver na Terra quem acredite que há algo mais legítimo do que o império, inteiramente legítimo o império nunca vai ser. Em termos estritos Deus não precisa sequer existir, ou basta que Deus exista nos clamores humanos por amor, igualdade e justiça.
Uma vez articulada a supranarrativa, uma vez que Deus tenha a liberdade ou a função de zombar do império e colocar em dúvida a sua suficiência, as alegações totalizadoras da supremacia imperial vêm abaixo imediatamente. Deus faz nascer a perspectiva, a perspectiva faz nascer a esperança, a esperança faz nascer o clamor por justiça – e do clamor por justiça brotam o confronto, a revolução e a reviravolta. O arbusto não precisa de outro combustível para começar a arder. A mera articulação da supranarrativa – que alguém ouse contar a história a partir do ponto de vista de Deus – serve para desencadear o processo.
O Êxodo é exemplar, mas Bíblia adentro a supranarrativa serve para desarmar as narrativas totalizadoras de um governo atrás do outro – até mesmo dos governos de Judá e de Israel . Deus é o observador cético da operação de todos os estados, o crítico social de todas as narrativas oficiais.
O império assírio, o império babilônico, o império romano – a Bíblia trabalha para anular os discursos totalizadores de cada um desses impérios, e oferece leituras cada vez mais críticas de suas operações e de sua legitimidade.
A supranarrativa oferecida e desencadeada por Jesus é por certo a mais devastadora e radical. O Pai de Jesus paira acima e além de todas as soluções políticas concebidas pelo ser humano. Ele não reconhece a legitimidade da monarquia, da democracia, da meritocracia, até mesmo da anarquia, porque todas essas soluções esbarram no detalhe – para ele inaceitável – de não serem o governo do amor e da graça, em que os prêmios são distribuídos pelo rígido critério do critério algum. No Novo Testamento a perversidade totalizadora do império só é corrigida pela instauração sempre interina do reino de Deus, o domínio em que governam não exércitos ou discursos mas o amor, que é despoder.

Um império sem uma supranarrativa

O capitalismo neoliberal é o maior império que o ocidente já ofereceu ao planeta, e é também o primeiro a não ser temperado por uma supranarrativa. Não acreditamos mais em Deus, pelo que não concebemos nada que se poste acima do capitalismo para efetivamente zombar dele, denunciar a sua ilegitimidade e clamar por justiça aos seus oprimidos. Deixamos de crer não apenas em Deus: deixamos de acreditar que para o império vigente existam verdadeiras alternativas. O império agradece.
A coisa que mais se assemelha a uma alternativa ao capitalismo é o socialismo, mas o socialismo é uma narrativa paralela, não uma verdadeira supranarrativa.
Contra o fundamentalismo de mercado uma narrativa paralela – um discurso alternativo, por mais lúcido e bem articulado que seja – não bastará jamais, porque o capitalismo é um morto-vivo que se apropria de tudo que se coloca no seu caminho, até mesmo os seus antagonistas, e reverte em seu favor a diferença de potencial. O capitalismo na verdade se beneficia da existência do socialismo como alternativa, e faz uso dele do mesmo modo que usa toda forma de concorrência ou de crítica: de modo a se legitimar.
Não sendo um discurso, a supranarrativa divina não se prestaria a esse tipo de apropriação. Porém deixamos de acreditar em Deus, deixamos de imaginar a perspectiva divina e de sonhar com ela, deixamos de dar ouvidos à divina crítica à comédia humana. A supranarrativa não representa um perigo para o capitalismo.
Nem mesmo os que acreditam em Deus, bem entendido, sentem-se compelidos a exercer a vocação divina à subversão política.
O islamismo tem a desvantagem de conter em si mesmo uma proposta política, um modelo de estado e de organização. O islamismo é capaz de criticar ocasionalmente o capitalismo mas, ao contrário do cristianismo bíblico, não está armado – não tem espaço de manobra – para criticar toda e qualquer organização política. Tendo a sua própria narrativa para defender, não está em condições de oferecer contra o império uma supranarrativa.
Os cristãos, que poderiam fazer diferente, não representam ameaça. A maior parte acompanha os evangélicos/republicanos norte-americanos em prestar irrestrita adoração ao capitalismo. Em vez de criticarem a própria natureza e a legitimidade do sistema, gastam tempo com polêmicas rasas e condicionadas, e suas intolerâncias e melindres alimentam os demônios do fascismo e do nacionalismo.
Os católicos estão mais próximos de fundamentar na divina perspectiva uma crítica ao capitalismo; veja-se por exemplo as posturas recentes do papa Francisco. Porém o capitalismo se defende negando a legitimidade da supranarrativa oferecida pelo papa e colocando em dúvida a sinceridade da sua fé. Não é que católicos como Francisco acreditam num Deus acima do capitalismo, afirmam os neoliberais; é que Francisco, por estupidez ou por maldade, acredita nas ilusões do comunismo (pouco importa que a ideia de que ninguém é melhor do que ninguém tenha sido cristã muito antes de ter sido comunista).
Desse modo o capitalismo prossegue mastigando os ossos do mundo, tendo já consumido as suas carnes, sem que qualquer supranarrativa se intervenha para oferecer perspectiva e esperança, e a partir dessas coisas a justiça.
Porque, se existisse, Deus estaria dizendo que os ricos e poderosos que você se sente tentado a invejar são na verdade canalhas e exploradores em situação precaríssima. Estaria dizendo que o capitalismo neoliberal, o sistema político-econômico que se afirma o mais justo já operado entre os homens, não passa de um império: um império maldito, ridículo, ilegítimo e perverso, que nada promove além de injustiça, desigualdade, destruição e opressão. Estaria dizendo ai dos ricos porque são demônios, e felizes dos pobres porque podem pelo menos dormir com a consciência limpa. Estaria dizendo que o reino de Deus é o domínio diametralmente oposto ao império da ganância e das explorações.
Estaria dizendo: bem-aventurados os que não consomem, porque não serão consumidos.
Curiosíssimo é que o Novo Testamento afirma, incrivelmente, quase blasfemamente, que Deus é amor. Sendo um ponto de vista, uma escolha e uma perspectiva, o amor pode sempre oferecer uma supranarrativa.
Talvez o Novo Testamento esteja certo, e Deus talvez não esteja no céu, mas no coração dos homens e mulheres de boa vontade. Talvez o reino do céu seja o reino da plena graça e igualdade na terra. Se Deus é amor, como está escrito em todas as Bíblias do planeta, acreditar em Deus tem de ser, pelo menos um pouco, acreditar no amor.
Deus então pode ser, e pode sempre ter sido, o espaço de manobra que se abre no coração de quem ousa conceber solução mais elevada do que o império. Se Deus é amor, pode muito bem não ter desejado existir em outra forma."
(Paulo Brabo, em sua "Forja Universal")

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

3 erros do governo PT

"Talvez o melhor aspecto do pensamento à esquerda e que mais me influenciou foi o estímulo à análise e à auto-crítica. Faz um ano publiquei um vídeo one analisava o problema dos governos recentes de esquerda no Brasil, que fizeram a maior inclusão da história do país, mas que o fizeram as custas de três defeitos: 1- a inclusão foi tutelada, não permitindo a libertação e a emancipação plena dos cidadãos. 2- A inclusão foi financiada por crédito para consumo, desestimulando a poupança e o investimento desde a base. 3- A inclusão foi medida pela capacidade de consumo, e assim sendo, criou mimados e estimulou o desejo mais torpe de felicidade por meio do consumo, do desejo e da aparência (avião, carro, eletrodomésticos, roupas se tornaram objetivos a serem alcançados). 
Esta tríade, mas em especial este terceiro aspecto explica em grande parte porque um João Dória, epítome do consumismo superficial, virou desejo de TODAS as sessões eleitorais de são paulo, elegeu-se nas zonas mais pobres do mesmo jeito que nas mais ricas, e porque não há resistência efetiva ao golpe, mas sim o silêncio omisso de quem não liga. Ao optar pela inclusão a crédito, tutelada e consumista criou-se o chão para pavimentar a subida da direita. Fomos derrotados não por uma direita má e autoritária, mas por optar por um conjunto de valores sedutores e irresponsáveis e por fazer inclusão pela consumo"

Claudio Oliver, no Facebook

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Cem mil, em dez anos, sem perceber

Curioso.
Enquanto estive afastado quase que totalmente da Internet, e, portanto, do meu blogue, eis que atingi 100000 visitas (somados os três que tenho, dos quais só este ainda está meio ativo).
Cem mil visitas em dez anos (completados em maio) não é grande coisa. Há muitos blogues que tem em um mês o que tive em dez anos.
E nunca aspirei a celebridade, o sucesso editorial, nem imaginei ganhar um tostão com essa atividade (e não ganhei).
Fi-la porque qui-la.
Mas não deixa de ser uma emoção atingir seis dígitos. Será que há alguém que me lê agora que leu minha primeira postagem nos idos de maio de 2006? Se há - duvido - muito obrigado! Tem sido um prazer e um sofrimento postar 1220 reflexões em forma de textos, músicas, e fotos.
Quanto tempo ainda virei aqui deixar minhas pegadas? Não faço a menor ideia. Se você ficar por aqui, saberá...

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Fala Edgar Morin:

"Atualmente, a África importa um terço de suas necessidades [alimentares]. A explicação encontra-se na política dos países que favorecem as exportações agrícolas em detrimento de sua soberania alimentar, que permitiria alimentar sua população de maneira autônoma, principalmente em cereais. Em consequência, o trigo de baixo preço, originário de países que subvencionam sua produção cerealista (França, EUA), e que substitui o mileto, o sorgo, a mandioca, extingue as produções indígenas. No meio agrícola, essa política se traduz pela eliminação dos recursos dos pequenos agricultores que praticam uma agricultura de subsistência, em benefício dos agroinvestidores, os quais, por sua vez, preferem trabalhar prioritariamente para o mercado internacional, com apoio dos governos que buscam divisas estrangeiras... a industrialização agrícola desenfreada provoca a degradação acelerada da terra, da água e o rápido empobrecimento da biodiversidade. Pior ainda: a concorrência desigual na exploração dos recursos agrava o processo de empobrecimento e de exclusão de milhões de famílias de pequenos agricultores rurais..."
(Morin, Edgar "A Via para o futuro da humanidade" ed. Bertrand Brasil, p 273, 274)

terça-feira, 19 de abril de 2016

Por que o Congresso é essa M*???

Estamos todos - pelo "sim" e pelo "não" - horrorizados com o comportamento do Congresso na sessão que aceitou o processo de impeachment.
Muitos falam que esse Congresso é apenas o reflexo da sociedade que o elegeu.
Concordo e discordo.
Tendo sido eleito em eleições "diretas", esse Congresso pode sim, ser considerado um espelho do brasileiro. E devemos, sim, nos envergonhar dele.
Porém, as eleições não são tão "diretas" assim. Dois fatores mudam e muito, a composição do Congresso.
O primeiro fator é a eleição por legenda. Isto é, um partido que consiga muitos votos, por ter alguns candidatos fortes (famosos, conhecidos, celebridades, políticos de carreira notável) elege, pelo "coeficiente eleitoral", muitos outros candidatos com poucos votos. E por esses dois caminhos (votar em quem já é conhecido, mas nem sempre reconhecido; e ser eleito por conta dos votos na legenda, e não em si mesmos), muitas portas para a mediocridade e corrupção são abertas.
O segundo fator é que as candidaturas exigem investimento vultuoso. E os detentores do poder econômico estão sempre sedentos por "financiar" uma campanha de alguém que depois, irá defender e representar seus interesses. O resultado é que muitos candidatos são eleitos com uma corda (ou coleira!) no pescoço e não se pode esperar nada de bom deles, apenas a defesa dos interesses - alguns inconfessáveis - do poder econômico.
E não é só. Suponhamos que um bom sujeito - honesto, trabalhador, bem intencionado - ganhe uma cadeira no Parlamento. O que acontece com ele? Qual o efeito da presença dele nos rumos do Congresso?
NENHUM.
Deixe-me repetir: N-E-N-H-U-M.
E sabe por que? Porque se ele não "entrar na jogada", não participar das "manobras", não fizer o que os carreiristas e vendidos quiserem, ele, por melhor que seja, nunca aprovará medida alguma, nunca fará parte de comissão importante, nem terá seu nome pronunciado em plenário. E, claro, nunca subirá no palanque. Será jogado às traças, será um zero à esquerda. Há alguns por aí.
Qual a solução para esse problema?
Não é uma, são muitas soluções. Todas passam por uma profunda reforma política.
Não há impeachment que mude essa situação desastrosa. Apenas a mobilização de todos - os "sim e os "não" - por uma reforma política completa vai nos tirar o gosto amargo da boca e a sensação de sermos eleitores bocós.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Homogênea e Burra


Há um movimento permanente no mundo natural em direção à multiplicidade. Rochas, plantas e animais sofrem mutações constantes que empurram o mundo rumo a uma maior diversidade. Ela é um forte suporte à manutenção da vida. Basta ver que os "vira-latas" são bem mais resistentes a doenças do que nossos cãezinhos com pedigree, certo?
Seria de se esperar que o mesmo movimento rumo à diversidade fosse aceito e recebido pela humanidade de forma natural, positiva e sem reservas. Afinal, contribui para a preservação da espécie humana.
Não é assim que acontece em sociedade. Todos temos uma forte inclinação para rechaçar o diferente e aderir ao igual, buscando sempre uma homogeneidade que, em alguns casos, seja a ser insana.
Há alguns anos escrevi um protesto contra a ditadura das cores nos automóveis. Isso porque só se viam carros pretos ou nos diversos tons de cinza pelas ruas, o que eu achava horroroso. E era difícil escapar, pois as opções diferentes eram raras.
Bem, tudo mudou e nada mudou.
Hoje, o que mais se vê são automóveis brancos. Concordo que o branco seja mais leve, claro, alegre que os famigerados tons de cinza que imperavam há pouco. Mas precisa ser tudo branco!?!?
Ah, se você pensa que o texto subentende uma aplicação em outras áreas da vida social, está certíssimo...

sábado, 4 de julho de 2015

O que me espanta

O que me espanta

O que me espanta não é o ódio destilado nas redes sociais por todos os lados de qualquer assunto.

Não importa se vc é a favor ou contra, esquerda ou direita, liberal ou conservador, coxinha ou petralha, crente ou ateu, roqueiro ou funkeiro. As posições são defendidas com unhas e dentes virtuais e são sempre questões que defendemos apaixonadamente.

O que me espanta não são o extremismo das posturas, a veemência dos ataques a quem não compartilha 100% de nossa opinião, a superficialidade das análises.

O que me espanta é que só existam, nas mentes e corações, duas situações possíveis: certo ou errado; branco ou preto, comigo ou contra mim. Se vc não faz parte do meu time, é meu adversário; se não é meu amigo, é meu inimigo, se não concorda comigo é porque não merece minha consideração, se não tem a minha fé é um infiel...

Isso é o que me espanta. Isso é o que me aterroriza. É disso que eu tenho muito medo...

Porque ao eleger como meu adversário, meu inimigo, meu opositor quem não partilha das minhas ideias, não tenho mais interesse nenhum em conhece-lo mais, em saber suas ideias e pesar suas opiniões. Só desejo eliminá-lo, despreza-lo, desmerece-lo.

A única sociedade possível nessa situação não é uma democracia plural, e, sim, uma sociedade homogênea. É uma teocracia absolutista, um regime autoritário unipartidário, uma ditadura fascista, coisa assim.

E eu não quero viver em um mundo assim. Nem quero esse mundo para meus filhos.