Aos dezesseis anos, fui espectador privilegiado e um pouco desavisado do rebelde ano de 1968, que muito se discute sobre ter ou não mudado o planeta.
Na época, morava em São Paulo, centro de grandes acontecimentos, cursava o primeiro ano colegial e estudava inglês na UCBEU, fundação que tinha o apoio discreto do governo americano.
Meu pai, pessoa interessada em política, apoiava a ditadura militar de então. Eu, leitor ávido de tudo que caía em minhas mãos e fã de cinema e música, não tinha certeza do que se passava no país e no mundo. Só fui clarear minhas posições sócio-política-artísticas na faculdade, já nos anos setenta.
Mas lembro-me da sensação de estar vivendo um momento ímpar na história, “a turning point”, como diria o inglês. Fiquei chocado com as mortes de Martin Luther King e Robert Kennedy; espantado com a rebelião dos jovens de Paris; curioso para saber mais sobre a tal liberação sexual; intimidado pelo ambiente politicamente polarizado e reprimido; atraído pelas novidades musicais e cinematográficas que surgiam; e amedrontado com a incerteza quanto ao futuro do país e do mundo, em plena guerra fria.
Pra ser bem sincero, sinto certa frustração, como se tivesse ficado no “olho do furação” e ele passasse sem que eu o percebesse.
Hoje penso que 1968 foi como um espasmo, que chacoalhou o planeta, mas não foi capaz de alterá-lo positivamente. E a frustração daquela geração deu margem ao individualismo mesquinho e sem ideais dos nossos dias. Debito boa parte das angústias dos jovens do séc XXI ao fracasso dos jovens do ano de 1968.
É triste, pelo que podia ter acontecido e não aconteceu; pelo que podia ter sido e acabou sendo...

