terça-feira, 3 de setembro de 2013

Muito pouco - Arnaldo Antunes

MUITO MUITO POUCO

(Arnaldo Antunes)
tem muito carro e muito pouco chão


tem muita gente e muito pouco pão

tem muito papo e muito pouca ação

muito parente e muito pouco irmão

e então?

o que vamos fazer então

com mais um milhão?

e depois?

o que vamos fazer depois

com um grão de arroz?

tem muito pouca dúvida e muita razão

tem muito pouca idéia e muita opinião

muita pornografia e muito pouco tesão

muita cerimônia e muito pouca educação

e então?

o que vamos fazer então

com mais um milhão?

e depois?

e daí?

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Herege

Algumas coisas que aceitamos com naturalidade hoje já foram heresias que colocavam em risco a vida de quem as mencionava: 
"O planeta Terra não é o centro do Universo"
"A raça branca não é superior às outras"
"Mulheres e homens devem ser iguais em direitos e deveres"
"Ninguém deve ter direitos absolutos sobre uma sociedade"
"As pessoas devem ter liberdade de expressão"
Tá certo, algumas ainda não são bem aceitas por todos, mas os que discordam são poucos.
Essas heresias provaram retratar melhor a realidade e ser mais benéficas à sociedade do que as "verdades" que elas substituíram. Mas levaram tempo para serem aceitas.

Tenho lutado com várias heresias que vem martelando minha cabeças nos últimos 20 anos. E tenho me tornado, pouco a pouco, um herege. A velhice não me fez mais sábio, mas, com certeza, mais herege. Sorte minha que não serei - espero - queimado em praça pública por isso. 
Pergunto-me se minhas heresias serão aceitas um dia como mais próximas da verdade do que as ideias que elas confrontam. Talvez - como aconteceu com muitos hereges - eu nem esteja vivo para ver esse resultado. Mas tenho esperança que elas possam ajudar o mundo a ser um pouco melhor e mais justo.
Salvo engano.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Gestão e indigestão

Muitos no Brasil creem que não nos faltam recursos e, por acaso faltassem, há recursos disponíveis mundo afora.
O problema é que nossos governos precisam de um "choque de gestão", dizem. Há muito desperdício, muita corrupção, muita ineficiência.
Li, há muitos anos, um famoso economista brasileiro dizer-se favorável à municipalização com o argumento de que "quando um prefeito erra, é um errinho; quando um presidente faz bobagem é uma enorme bobagem".
A descentralização do poder governamental, por essa ótica, é não só desejável, mas benéfica. 
Mas aí, acontecem as contradições: jornal da minha cidade da destaque para o recuo do prefeito em criar oito secretários adjuntos (leia AQUI). À primeira vista, parece ser uma decisão sensata, pois estanca o gasto público com pessoal - ainda mais oito cargos de alto nível como esses. Só que a análise que não vi foi a de que esses cargos permitiriam às grandes secretarias (como a Saúde e a Educação) descentralizarem a administração, levando o poder de decisão para mais próximo dos problemas a serem enfrentados.
A cidade tem mais de 600 mil habitantes. É difícil exigir eficiência de uma máquina administrativa tão grande ou desejar uma estrutura mais "enxuta" com tão grandes desafios. 
A descentralização do poder de decisão pode, num primeiro momento, aparentar um aumento da máquina pública (que não desejamos), mas permite atingir maior eficiência no uso dos recursos públicos (que almejamos).
O que assistimos hoje no serviço público municipal de saúde é "correr atrás do prejuízo", "apagar incêndios", "o gestor como vítima da demanda". Se nada mudar, vamos continuar assim. Isso não é gestão, é indigestão...

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Ser como Deus

"Os homens devem ambicionar nada mais nada menos do que ser como Deus - e ser como Deus é imitá-lo em sua característica mais essencial, sua característica mais inacessível e mais acessível e mais formidável: sua inflexível resolução em amar.
Num único gesto tornava ele a vida muito mais difícil - não basta aos homens ser menos do que Deus - e mais bela - ser como Deus é amar.
A perspectiva era assombrosa: o caminho de ser como Deus estava aberto a todos os homens, e o requerimento era uma postura ao mesmo tempo singela e exigentíssima: o amor. O evangelho de Jesus é este: o amor é a característica distintiva que Deus escolheu para se definir e se revelar, e é portanto a característica distintiva que Deus sonha escolham para si os seres humanos. A boa notícia não é só que Deus é amor, mas que podemos nós mesmos fazer parte da boa notícia."

(Paulo Brabo, em "As Divinas Gerações", página41/42)

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Amor e Liberdade

"No no love without freedom
No freedom without love..."

Não há amor sem liberdade
Não há liberdade sem amor

Dido: ouça em http://youtu.be/0nO45A7tTMs

quinta-feira, 25 de julho de 2013

A Segurança e o Isolamento

As pessoas procuram, necessitam sentir-se seguras. E para isso buscam diversos meios.
Essa sensação de segurança é falsa, pois segurança não existe.
A todo e qualquer momento, em todo e qualquer lugar estamos sujeitos a tragédias desde de as mais irrelevantes - pisar num chiclete na calçada - às mais drásticas - morrer.
Mas, sabe-se lá porque, elas raramente acontecem. E não porque tenhamos tomado as devidas providências. Se você andar olhando para o chão o tempo todo para não pisar num chiclete, pode dar de cabeça num poste; se vc toma todas as precauções para não morrer de doença ou crime, pode ser vítima de um acidente.
Um dos maiores males resultantes da nossa preocupação excessiva com a segurança pessoal é o isolamento. Construímos muros e grades em torno das residências; andamos em veículos de vidros fumê, janelas fechadas; não falamos com estranhos; não passamos por locais desconhecidos, não frequentamos outros; trancamo-nos em casa, no escritório; escondemos nossos celulares, jóias, relógios. Tudo para aumentar a segurança... em vão.
Só aumentamos o nosso isolamento uns dos outros, apenas criamos uma falsa sensação de segurança, mas a situação de incomunicabilidade social é real.
As manifestações recentes tem também esse elemento "novo": a quebra do isolamento, o abrir mão da segurança para se viver em comunhão - por algumas horas - com o outro, que não conhecemos, mas que está ao nosso lado e se faz de nosso cúmplice no manifesto.
Se derrubássemos os muros que nos separam, deixássemos de lado a obsessão pela segurança, olhássemos as pessoas de frente, desarmados e vivêssemos em "comunidade" (oposto de isolamento), sabe o que aconteceria com a criminalidade? Despencaria, porque todos estariam comungando um espaço de todos e a violência contra um seria sentida e rechaçada por todos.
Mas, não. Preferimos nosso espaço (casa, trabalho, carro, igreja) bem fechado, protegido.
Como se isso não fosse apenas uma ilusão...

terça-feira, 16 de julho de 2013

O Fundamentalista e o Herege

"Para o fundamentalista todo que crê no diverso ou descrê do comum é herege."
(Marcelo Ferreira, lá da Zona da Reforma)

E a frase não se aplica apenas ao fundamentalista religioso, não! Tem muito fundamentalista político, científico, social, filosófico e cultural por aí...

quarta-feira, 10 de julho de 2013

Alegrias e Preocupações

Alegram-me as manifestações por provar que muitas pessoas estão preocupadas e dispostas a demonstrar suas insatisfações com os problemas do país e a exigir providências para melhorar a vida da população;

Preocupam-me as manifestações porque em meio a tantas demandas, protestos e exigências - das mais simples às mais absurdas - vejo raro, e localizados nos mesmos grupos tidos por "radicais", o protesto contra "o sistema" - esse conjunto de normas, procedimentos, valores, leis e tradições econômicas, políticas, sociais, culturais e até religiosas - imposto pelos detentores do poder com o único e específico objetivo de mantê-lo e, se possível, aumentar o controle e influência sobre as pessoas e que tem sido, em suma, fonte inesgotável de injustiças, sofrimento e dominação de muitos por uns poucos (e os mesmo) há muito e muito tempo (demais).

Aos que por ventura perguntarem: "O que colocar em lugar desse sistema capitalista perverso?", respondo: "Não sei, mas isso que está aí eu definitivamente não quero!".

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Mais política, partidos e poder

Escrevi no Facebook:

"Alguém pode se perguntar o que é que eu tenho contra os partidos políticos. Contra os partidos, nada. O problema é que TODO partido aspira ao poder. E pra chegar "lá" e lá manter-se, TODOS vendem a alma pro diabo. Enfim, o problema é o danado do "pudê" e da grande verdade que o poder corrompe... sempre."
 
Um amigo comentou que sim, "mas um mal necessário em uma democracia representativa...não é perfeita, mas não inventaram nada melhor...na verdade todo HOMEM aspira algum tipo de poder...não são os partidos, somos nós..."

O que me fez responder que "é necessário imprimir na organização social uma regra pétrea de alta rotatividade de poder, de diluição do poder, de aproximação do poder com a população - que é de onde emana o poder político, certo? Os partidos, por serem permanentes, aspiram o poder para perpetuarem-se nele. É instinto de preservação mesmo. O que acontece com toda organização humana - até, e inclusive, as igrejas. Se faz necessário solapar esse poder, castrar essas ânsia, esvaziar esse objetivo, enfraquecer o instinto. E isso só se faz com constantes e profundas mudanças no poder." 

O que, em resumo, é minha grande diferença com as instituições, em geral. Todas caem na busca pela auto-preservação e manutenção do poder que adquirem ao ter sucesso junto à comunidade. Pois o poder tem o grande benefício de dar - aparente - solidez e segurança. E aí o objetivo, a missão da organização foi pro beleléu e a instituição começa a trabalhar para viver (e manter o poder é parte disso) e não para servir.   

A pergunta, então é: Será desejável um sistema político sem partidos? Desejável, talvez; possível, duvido. 

Proponho que seja restrito ao mínimo o poder dos partidos:
- seja através dos métodos eleitorais, seja através da distribuição de representatividade, forma de funcionamento das assembleias de eleitos (pra quê Senado?), da remuneração deles, etc 
- e descentralizado ao máximo o alcance do poder - via municipalização, por exemplo 
- e promovida a constante rotatividade dos representantes do povo - com o fim da re-eleição, adoção do voto distrital, etc.

Tá bom assim, pra começar. Só pra começar...