"São muitos os truques e logros aí engenhados com o intuito de ludibriar ou ao menos adiar as transformações e a evolução positivas nas relações sociais
...
Contudo, sem a menor dúvida, o maior ardil estabelecido consiste em alienar, sequestrar todas a nossas energias, todo nosso tempo, numa eterna e angustiante luta pela sobrevivência, criando-se uma moderníssima escravatura."
(Fabio Ortiz Jr., em "Como Entender e Sobreviver ao Intento", CEPA, 2019)
Fabio, no capítulo "Sustentabilidade e Cidadania", reflete sobre a insanidade do atual "estilo de vida", que tem na acumulação ilimitada o seu maior valor, e como essa forma de viver vai nos levar à extinção da vida humana e possivelmente de muitas outras formas de vida na Terra. E completa: "Precisamos parar de nos debater; precisamos lutar".
Um ser à procura de sua humanidade. Seja bem vindo, e fique à vontade para comentar!!!
quinta-feira, 19 de setembro de 2019
quarta-feira, 18 de setembro de 2019
Água e Tempo
"Acontece todos os dias, vezes sem conta.
Abrimos a torneira e lá está ela, a água verte para que dela façamos bom uso. Damos um toque no interruptor e, zás, o ambiente se ilumina.
...
Às vezes, não. Logo reagimos: que absurdo, o que será que aconteceu agora? Quem será o responsável por esta incompetência?
O fato cotidiano é que contamos com que haja água e luz à nossa disposição, damos por certo que elas estarão lá, pensamos nisto como um fato natural."
("Como Entender e Sobreviver ao Intento", de Fábio Ortiz Jr., CEPA, 2019)
Creia, meu amigo, não é.
Abrimos a torneira e lá está ela, a água verte para que dela façamos bom uso. Damos um toque no interruptor e, zás, o ambiente se ilumina.
...
Às vezes, não. Logo reagimos: que absurdo, o que será que aconteceu agora? Quem será o responsável por esta incompetência?
O fato cotidiano é que contamos com que haja água e luz à nossa disposição, damos por certo que elas estarão lá, pensamos nisto como um fato natural."
("Como Entender e Sobreviver ao Intento", de Fábio Ortiz Jr., CEPA, 2019)
Creia, meu amigo, não é.
domingo, 15 de setembro de 2019
Passado, Presente. Futuro
"Se você quer conhecer seu passado, olhe sua condição atual; se você quer conhecer seu futuro, olhe suas ações atuais"
(provérbio chinês, em "Como Entender e Sobreviver ao Intento", de Fabio Ortiz Jr.)
terça-feira, 10 de setembro de 2019
"Não temos o que merecemos, temos o que nos assemelha"
Este trecho, parte do "Preâmbulo" do livro "Como Entender e Sobreviver ao Intento", de Fabio Ortiz Jr. (edição do Autor, 2019) dá bem a noção do tamanho da tarefa a que se propõe o autor. E um relance do desafio que, como humanidade, temos à frente.
Outros trechos virão.
segunda-feira, 9 de setembro de 2019
Como entender e sobreviver ao Intento
Nos últimos 15 dias tenho saboreado a leitura do volume 1 da série "Mundo: um guia não autorizado" do meu amigo e colega de faculdade (Geologia USP, classe '75), Fabio Ortiz Jr.
O texto, como o autor o define, é "uma leitura ambientalista da distopia real" que envolve a reflexão progressiva sobre temas tais como: tempo, espaço, ambiente, ecologia, educação, ambientalismo, desenvolvimento, sustentabilidade, cidadania, democracia, utopia, e o olhar, o compreender, o agir, o transcender, o imaginar.
A leitura é muito agradável e leve, movida pelo que diz o autor, "algo intrínseco à espécie humana e essencial: a curiosidade. Puxa-se um fio aqui, para ver o que traz; e logo surge outro ali. Uma coisa vai puxando a outra... e assim chegamos lá. No destino? Não! No caminho..."
Pretendo citar alguns trechos aqui, à medida que for me inteirando do seu conteúdo.
Vocês, certamente, vão gostar!!!
O texto, como o autor o define, é "uma leitura ambientalista da distopia real" que envolve a reflexão progressiva sobre temas tais como: tempo, espaço, ambiente, ecologia, educação, ambientalismo, desenvolvimento, sustentabilidade, cidadania, democracia, utopia, e o olhar, o compreender, o agir, o transcender, o imaginar.
A leitura é muito agradável e leve, movida pelo que diz o autor, "algo intrínseco à espécie humana e essencial: a curiosidade. Puxa-se um fio aqui, para ver o que traz; e logo surge outro ali. Uma coisa vai puxando a outra... e assim chegamos lá. No destino? Não! No caminho..."
Pretendo citar alguns trechos aqui, à medida que for me inteirando do seu conteúdo.
Vocês, certamente, vão gostar!!!
Ignorância e Arrogância
"É muito difícil se livrar da ignorância se você mantém a arrogância"
(Documentário "Guerra do Vietnã", episódio 4, Netflix)
segunda-feira, 2 de setembro de 2019
Democracia sobre ruínas
"O Vietnã todo era um campo de batalha. Se os americanos queriam que uma democracia fosse construída a partir daquelas ruínas, isso era irreal. Claramente, o Vietnã do Sul era mais democrático, mas em uma luta tão violenta, o lado em que os soldados tivessem menos dúvidas e fizessem menos perguntas venceria."
Huy Duc, norte-vietnamita, em "A Guerra do Vietnã", na Netflix
Huy Duc, norte-vietnamita, em "A Guerra do Vietnã", na Netflix
domingo, 1 de setembro de 2019
Minimalismo e materialismo
A socióloga Juliet Schor responde a afirmação do escritor Colon Beavan, no documentário "Minimalismo", da Netflix, de que "o problema da nossa sociedade é ser materialista demais":
"Na verdade, se pensarmos em alguns aspectos, não somos materialistas o bastante. Somos muito materialistas no sentido do cotidiano. E não somos muito materialistas no sentido real da palavra. Precisamos ser verdadeiros materialistas e realmente nos importarmos com bens materiais. Ao invés disso, estamos em um mundo onde os bens materiais são muito importantes pelos seus significados simbólicos, como eles nos posicionam no sistema de status, baseado no que a propaganda ou mídia diz sobre eles."
"Na verdade, se pensarmos em alguns aspectos, não somos materialistas o bastante. Somos muito materialistas no sentido do cotidiano. E não somos muito materialistas no sentido real da palavra. Precisamos ser verdadeiros materialistas e realmente nos importarmos com bens materiais. Ao invés disso, estamos em um mundo onde os bens materiais são muito importantes pelos seus significados simbólicos, como eles nos posicionam no sistema de status, baseado no que a propaganda ou mídia diz sobre eles."
sábado, 31 de agosto de 2019
Melô do bolsominion
Por incrível que pareça, procurei essa canção pelo YouTube e Google inteiros e não achei!!! (que vexame, hein, Google!!!)
Quando moleque, década de 60, gostava de uma música da Jovem Guarda, acho que cantada suave pela Wanderlea (não tenho certeza), que dizia assim:
Tem melhor descrição de um bolsominion do que essa canção? Tem não!!!!! 😜
Quando moleque, década de 60, gostava de uma música da Jovem Guarda, acho que cantada suave pela Wanderlea (não tenho certeza), que dizia assim:
♬
"Tal como é, vazio e sem fé, indiferente, mau para mim... amo, e gosto dele assim, assim, assim..."
♫
Tem melhor descrição de um bolsominion do que essa canção? Tem não!!!!! 😜
sexta-feira, 30 de agosto de 2019
Culpa e Amazônia
"Apesar de defender a proteção da Amazônia, a Europa tem sua parcela de culpa na redução da cobertura florestal no Brasil ao aumentar as importações de produtos brasileiros considerados vilões do desmatamento, como a carne.
Essa é a opinião da alemã Carina Zell-Ziegler, especialista em energia e clima do Öko-Institut, instituto de pesquisa ambiental do setor privado sem fins lucrativos sediado na Alemanha."
(do BBC News Brasil de hoje)
Medicina e Fé
Tenho visto muitos, mas muitos mesmo, casos de gripe simples serem tratadas pelos "doutores", com antibióticos.
A burrice é tamanha que só me resta imaginar que esses "médicos" tem fé nos antibióticos... fé tal e qual a dos religiosos fundamentalistas: uma merda!
A burrice é tamanha que só me resta imaginar que esses "médicos" tem fé nos antibióticos... fé tal e qual a dos religiosos fundamentalistas: uma merda!
quinta-feira, 29 de agosto de 2019
Esopo e o ex-tenente
"ESOPO E O AUTORITARISMO OBSCURANTISTA RELIGIOSO-BOLSONARIANO BRASILEIRO
Por Obadias de Deus
Anos atrás, quando meus amigos evangélicos pensadores me diziam que o Brasil corria o risco de cair numa ditadura obscurantista evangélica, eu dizia: “Calma lá, amigos! Não acredito que essas ideias retrógradas terão espaço no Brasil! Temos muita gente civilizada!” Hoje, com a possibilidade de o Brasil se tornar uma teocracia evangélica nos moldes iranianos, devo reconhecer que apostei demais na nossa suposta civilidade.
No período eleitoral, quando Bolsonaro crescia assustadoramente do episódio obscuro da facada, eu dizia aos meus amigos mais catastrofistas: “Calma lá, amigos! Bolsonaro é um falastrão imbecil! Ele chegará ao poder e será enquadrado pelo establishment! Ainda que o establishment político brasileiro seja muito ruim, as forças políticas tradicionais não deixarão que ele instaure seu regime de barbárie!” Devo reconhecer, novamente, que fui muito otimista e acreditei demais na nossa suposta civilidade.
Lembrei-me desses episódios ao ler trechos do livro “Quando as democracias morrem”, de Steven Levitsky, quando cita abomináveis autocratas do século XX, grupo a que Bolsonaro está se tornando aos poucos um “venerável” candidato:
Surgira uma séria disputa entre o cavalo e o javali; então, o cavalo foi a um caçador e pediu ajuda para se vingar. O caçador concordou, mas disse: “Se deseja derrotar o javali, você deve permitir que eu ponha esta peça de ferro entre as suas mandíbulas, para que possa guiá-lo com estas rédeas, e que coloque esta sela nas suas costas, para que possa me manter firme enquanto seguimos o inimigo.” O cavalo aceitou as condições e o caçador logo o selou e bridou. Assim, com a ajuda do caçador, o cavalo logo venceu o javali, e então disse: “Agora, desça e retire essas coisas da minha boca e das minhas costas.” “Não tão rápido, amigo”, disse o caçador. “Eu o tenho sob minhas rédeas e esporas, e por enquanto prefiro mantê-lo assim.”
(...)
Com a ordem política restaurada pela nomeação de Mussolini e o socialismo em retirada, o mercado de ações italiano subiu fragorosamente. Estadistas mais velhos do establishment liberal, como Giovanni Giolitti e Antonio Salandra, se viram aplaudindo a virada dos acontecimentos. Eles encaravam Mussolini como um aliado útil. Contudo, como o cavalo da fábula de Esopo, a Itália logo se viu sob rédeas e esporas. Versões semelhantes dessa história se repetiram em todo o mundo ao longo do último século. Um elenco de outsiders políticos, incluindo Adolf Hitler, Alberto Fujimori no Peru e Hugo Chávez na Venezuela, chegou ao poder da mesma maneira: a partir de dentro, via eleições ou alianças com figuras políticas poderosas. Em cada caso, as elites acreditaram que o convite para exercer o poder conteria o outsider, levando a uma restauração do controle pelos políticos estabelecidos. Contudo, seus planos saíram pela culatra. Uma mistura letal de ambição, medo e cálculos equivocados conspirou para levá-las ao mesmo erro: entregar condescendentemente as chaves do poder a um autocrata em construção."
(...)
Com a ordem política restaurada pela nomeação de Mussolini e o socialismo em retirada, o mercado de ações italiano subiu fragorosamente. Estadistas mais velhos do establishment liberal, como Giovanni Giolitti e Antonio Salandra, se viram aplaudindo a virada dos acontecimentos. Eles encaravam Mussolini como um aliado útil. Contudo, como o cavalo da fábula de Esopo, a Itália logo se viu sob rédeas e esporas. Versões semelhantes dessa história se repetiram em todo o mundo ao longo do último século. Um elenco de outsiders políticos, incluindo Adolf Hitler, Alberto Fujimori no Peru e Hugo Chávez na Venezuela, chegou ao poder da mesma maneira: a partir de dentro, via eleições ou alianças com figuras políticas poderosas. Em cada caso, as elites acreditaram que o convite para exercer o poder conteria o outsider, levando a uma restauração do controle pelos políticos estabelecidos. Contudo, seus planos saíram pela culatra. Uma mistura letal de ambição, medo e cálculos equivocados conspirou para levá-las ao mesmo erro: entregar condescendentemente as chaves do poder a um autocrata em construção."
quarta-feira, 28 de agosto de 2019
Dez estratégias de manipulação em massa.
Clique no link. Se você ainda não conhece, vale a pena.
http://yogui.co/10-estrategias-de-manipulacao-em-massa-utilizadas-diariamente-contra-voce/?fbclid=IwAR3PNlSzpFYMjcApA-7fD7JNkevDe4fD-D492ZaiX3f4rf6fGy9my6tS9fg
http://yogui.co/10-estrategias-de-manipulacao-em-massa-utilizadas-diariamente-contra-voce/?fbclid=IwAR3PNlSzpFYMjcApA-7fD7JNkevDe4fD-D492ZaiX3f4rf6fGy9my6tS9fg
terça-feira, 27 de agosto de 2019
Lutas e armas
"A gente devia escolher melhor as lutas que vamos lutar.
E mais: Prestar muita atenção nas armas que utilizamos."
- frase retirada de comentário no FB.
SUS é "balbúrdia"!!! Sem o SUS é barbárie!!!!
SEM O SUS É A BARBÁRIE
Por Dráusio Varela
"O Brasil foi ousado ao levar assistência médica gratuita a toda a população
“Sem o SUS, é a barbárie.” A frase não é minha, mas traduz o que penso. Foi dita por Gonzalo Vecina, da Faculdade de Saúde Pública da USP, um dos sanitaristas mais respeitados entre nós, numa mesa redonda sobre os rumos do SUS, na Fundação Fernando Henrique Cardoso.
Estou totalmente de acordo com ela, pela simples razão de que pratiquei medicina por 20 anos antes da existência do SUS.
Talvez você não saiba que, naquela época, só os brasileiros com carteira assinada tinham direito à assistência médica, pelo antigo INPS. Os demais pagavam pelo atendimento ou faziam fila na porta de meia dúzia de hospitais públicos espalhados pelo país ou dependiam da caridade alheia, concentrada nas santas casas de misericórdia e em algumas instituições religiosas.
Eram enquadrados na indigência social os trabalhadores informais, os do campo, os desempregados e as mulheres sem maridos com direito ao INPS. As crianças não tinham acesso a pediatras e recebiam uma ou outra vacina em campanhas bissextas organizadas nos centros urbanos, de preferência em períodos eleitorais.
Então, 30 anos atrás, um grupo de visionários ligados à esquerda do espectro político defendeu a ideia de que seria possível criar um sistema que oferecesse saúde gratuita a todos os brasileiros. Parecia divagação de sonhadores.
Ao saber que se movimentavam nos corredores do Parlamento, para convencer deputados e senadores da viabilidade do projeto, achei que levaríamos décadas até dispor de recursos financeiros para a implantação de políticas públicas com tal alcance.
Menosprezei a determinação, o compromisso com a justiça social e a capacidade de convencimento desses precursores. Em 1988, escrevemos na Constituição: “Saúde é direito do cidadão e dever do Estado”.
Por incrível que pareça, poucos brasileiros sabem que o Brasil é o único país com mais de 100 milhões de habitantes que ousou levar assistência médica gratuita a toda a população.
Falamos com admiração dos sistemas de saúde da Suécia, da Noruega, da Alemanha, do Reino Unido, sem lembrar que são países pequenos, organizados, ricos, com tradição de serviços de saúde pública instalados desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Sem menosprezá-los, garantir assistência médica a todos em lugares com essas características é brincadeira de criança perto do desafio de fazê-lo num país continental, com 210 milhões de habitantes,
baixo nível educacional, pobreza, miséria e desigualdades regionais e sociais das dimensões das nossas.
baixo nível educacional, pobreza, miséria e desigualdades regionais e sociais das dimensões das nossas.
Para a maioria dos brasileiros, infelizmente, a imagem do SUS é a do pronto-socorro com macas no corredor, gente sentada no chão e fila de doentes na porta. Tamanha carga de impostos para isso, reclamam todos.
Esquecem-se de que o SUS oferece gratuitamente o maior programa de vacinações e de transplantes de órgãos do mundo. Nosso programa de distribuição de medicamentos contra a Aids revolucionou o tratamento da doença nos cinco continentes. Não percebem que o resgate chamado para socorrer o acidentado é do SUS, nem que a qualidade das transfusões de sangue nos hospitais de luxo é assegurada por ele.
Nossa Estratégia Saúde da Família, com agentes comunitários em equipes multiprofissionais que já atendem de casa em casa dois terços dos habitantes, é citada pelos técnicos da Organização
Mundial da Saúde como um dos mais importantes do mundo.
Mundial da Saúde como um dos mais importantes do mundo.
Pouquíssimos têm consciência de que o SUS é, disparado, o maior e o mais democrático programa de distribuição de renda do país. Perto dele, o Bolsa Família não passa de pequena ajuda. Enquanto investimos no SUS cerca de R$ 270 bilhões anuais, o orçamento do Bolsa Família mal chega a 10% disso.
Os desafios são imensos. Ainda nem nos livramos das epidemias de doenças infecciosas e parasitárias e já enfrentamos os agravos que ameaçam a sobrevivência dos serviços de saúde pública dos países mais ricos: envelhecimento populacional, obesidade, hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, câncer,
degenerações neurológicas.
degenerações neurológicas.
Ao SUS faltam recursos e gestão competente para investi-los de forma que não sejam desperdiçados, desviados pela corrupção ou para atender a interesses paroquiais e, sobretudo, continuidade administrativa. Nos últimos dez anos tivemos 13 ministros da Saúde.
Apesar das dificuldades, estamos numa situação incomparável à de 30 anos atrás. Devemos defender o SUS e nos orgulhar da existência dele.
O Brasil foi ousado ao levar assistência médica gratuita a toda a população
“Sem o SUS, é a barbárie.” A frase não é minha, mas traduz o que penso. Foi dita por Gonzalo Vecina, da Faculdade de Saúde Pública da USP, um dos sanitaristas mais respeitados entre nós, numa mesa redonda sobre os rumos do SUS, na Fundação Fernando Henrique Cardoso.
Estou totalmente de acordo com ela, pela simples razão de que pratiquei medicina por 20 anos antes da existência do SUS.
Talvez você não saiba que, naquela época, só os brasileiros com carteira assinada tinham direito à assistência médica, pelo antigo INPS. Os demais pagavam pelo atendimento ou faziam fila na porta de meia dúzia de hospitais públicos espalhados pelo país ou dependiam da caridade alheia, concentrada nas santas casas de misericórdia e em algumas instituições religiosas.
Eram enquadrados na indigência social os trabalhadores informais, os do campo, os desempregados e as mulheres sem maridos com direito ao INPS. As crianças não tinham acesso a pediatras e recebiam uma ou outra vacina em campanhas bissextas organizadas nos centros urbanos, de preferência em períodos eleitorais.
Então, 30 anos atrás, um grupo de visionários ligados à esquerda do espectro político defendeu a ideia de que seria possível criar um sistema que oferecesse saúde gratuita a todos os brasileiros. Parecia divagação de sonhadores.
Ao saber que se movimentavam nos corredores do Parlamento, para convencer deputados e senadores da viabilidade do projeto, achei que levaríamos décadas até dispor de recursos financeiros para a implantação de políticas públicas com tal alcance.
Menosprezei a determinação, o compromisso com a justiça social e a capacidade de convencimento desses precursores. Em 1988, escrevemos na Constituição: “Saúde é direito do cidadão e dever do Estado”.
Por incrível que pareça, poucos brasileiros sabem que o Brasil é o único país com mais de 100 milhões de habitantes que ousou levar assistência médica gratuita a toda a população.
Falamos com admiração dos sistemas de saúde da Suécia, da Noruega, da Alemanha, do Reino Unido, sem lembrar que são países pequenos, organizados, ricos, com tradição de serviços de saúde pública instalados desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Sem menosprezá-los, garantir assistência médica a todos em lugares com essas características é brincadeira de criança perto do desafio de fazê-lo num país continental, com 210 milhões de habitantes,
baixo nível educacional, pobreza, miséria e desigualdades regionais e sociais das dimensões das nossas.
baixo nível educacional, pobreza, miséria e desigualdades regionais e sociais das dimensões das nossas.
Para a maioria dos brasileiros, infelizmente, a imagem do SUS é a do pronto-socorro com macas no corredor, gente sentada no chão e fila de doentes na porta. Tamanha carga de impostos para isso, reclamam todos.
Esquecem-se de que o SUS oferece gratuitamente o maior programa de vacinações e de transplantes de órgãos do mundo. Nosso programa de distribuição de medicamentos contra a Aids revolucionou o tratamento da doença nos cinco continentes. Não percebem que o resgate chamado para socorrer o acidentado é do SUS, nem que a qualidade das transfusões de sangue nos hospitais de luxo é assegurada por ele.
Nossa Estratégia Saúde da Família, com agentes comunitários em equipes multiprofissionais que já atendem de casa em casa dois terços dos habitantes, é citada pelos técnicos da Organização
Mundial da Saúde como um dos mais importantes do mundo.
Mundial da Saúde como um dos mais importantes do mundo.
Pouquíssimos têm consciência de que o SUS é, disparado, o maior e o mais democrático programa de distribuição de renda do país. Perto dele, o Bolsa Família não passa de pequena ajuda. Enquanto investimos no SUS cerca de R$ 270 bilhões anuais, o orçamento do Bolsa Família mal chega a 10% disso.
Os desafios são imensos. Ainda nem nos livramos das epidemias de doenças infecciosas e parasitárias e já enfrentamos os agravos que ameaçam a sobrevivência dos serviços de saúde pública dos países mais ricos: envelhecimento populacional, obesidade, hipertensão, diabetes, doenças cardiovasculares, câncer,
degenerações neurológicas.
degenerações neurológicas.
Ao SUS faltam recursos e gestão competente para investi-los de forma que não sejam desperdiçados, desviados pela corrupção ou para atender a interesses paroquiais e, sobretudo, continuidade administrativa. Nos últimos dez anos tivemos 13 ministros da Saúde.
Apesar das dificuldades, estamos numa situação incomparável à de 30 anos atrás. Devemos defender o SUS e nos orgulhar da existência dele."
(extraído de postagem de Karen Souza, no FB. Obrigado!)
segunda-feira, 26 de agosto de 2019
Bando de Cafonas - texto de Fernanda Young
Este texto não estava na minha lista de publicações, mas é impossível não prestar um homenagem singela a quem teve a perspicácia de escrever algo assim:
Bando de cafonas
Por Fernanda Young, no O Globo (26/08/2019)
Por Fernanda Young, no O Globo (26/08/2019)
A Amazônia em chamas, a censura voltando, a economia estagnada, e a pessoa quer falar de quê? Dos cafonas. Do império da cafonice que nos domina. Não exatamente nas roupas que vestimos ou nas músicas que escutamos – a pessoa quer falar do mau gosto existencial. Do que há de cafona na vulgaridade das palavras, na deselegância pública, na ignorância por opção, na mentira como tática, no atraso das ideias.
O cafona fala alto e se orgulha de ser grosseiro e sem compostura. Acha que pode tudo e esfrega sua tosquice na cara dos outros. Não há ética que caiba a ele. Enganar é ok. Agredir é ok. Gentileza, educação, delicadeza, para um convicto e ruidoso cafona, é tudo coisa de maricas.
O cafona manda cimentar o quintal e ladrilhar o jardim. Quer todo mundo igual, cantando o hino. Gosta de frases de efeito e piadas de bicha. Chuta o cachorro, chicoteia o cavalo e mata passarinho. Despreza a ciência, porque ninguém pode ser mais sabido que ele. É rude na língua e flatulento por todos os seus orifícios. Recorre à religião para ser hipócrita e à brutalidade para ser respeitado.
A cafonice detesta a arte, pois não quer ter que entender nada. Odeia o diferente, pois não tem um pingo de originalidade em suas veias. Segura de si, acha que a psicologia não tem necessidade e que desculpa não se pede. Fala o que pensa, principalmente quando não pensa. Fura filas, canta pneus e passa sermões. A cafonice não tem vergonha na cara.
O cafona quer ser autoridade, para poder dar carteiradas. Quer vencer, para ver o outro perder. Quer ser convidado, para cuspir no prato. Quer bajular o poderoso e debochar do necessitado. Quer andar armado. Quer tirar vantagem em tudo. Unidos, os cafonas fazem passeatas de apoio e protestos a favor. Atacam como hienas e se escondem como ratos.
Existe algo mais brega do que um rico roubando? Algo mais chique do que um pobre honesto? É sobre isso que a pessoa quer falar, apesar de tudo que está acontecendo. Porque só o bom gosto pode salvar este país.
Democracia morta, segundo Steven Levitsky
"A via eleitoral para o colapso é perigosamente enganosa. Com um golpe de Estado clássico, como no Chile de Pinochet, a morte da democracia é imediata e evidente para todos. O palácio presidencial arde em chamas. O presidente é morto, aprisionado ou exilado. A Constituição é suspensa ou abandonada. Na via eleitoral, nenhuma dessas coisas acontece. Não há tanques nas ruas. Constituições e outras instituições nominalmente democráticas restam vigentes. As pessoas ainda votam. Autocratas eleitos mantêm um verniz de democracia enquanto corroem a sua essência.
Muitos esforços do governo para subverter a democracia são “legais”, no sentido de que são aprovados pelo Legislativo ou aceitos pelos tribunais. Eles podem até mesmo ser retratados como esforços para aperfeiçoar a democracia – tornar o Judiciário mais eficiente, combater a corrupção ou limpar o processo eleitoral. Os jornais continuam a ser publicados, mas são comprados ou intimidados e levados a se autocensurar. Os cidadãos continuam a criticar o governo, mas muitas vezes se veem envolvidos em problemas com impostos ou outras questões legais. Isso cria perplexidade e confusão nas pessoas. Elas não compreendem imediatamente o que está acontecendo. Muitos continuam a acreditar que estão vivendo sob uma democracia."
Steven Levitsky, em "Como as Democracias Morrem" (obrigado, Obadias de Deus, pela dica)
domingo, 25 de agosto de 2019
Observar e absorver: Em cima do muro?
"Tem quem diga que estou em cima do muro porque não voto. Visão superficial de quem só vê os dois lados. Eu me sinto no centro de um círculo e posso caminhar na direção que minha consciência decidir. Não me vejo em cima de muro porque não vejo só dois lados pra pular. Que pulem os que pensam assim, escolham seus lados. Na minha visão, é pura indução midiática, cultural, comportamental, da natureza de uma sociedade competitiva, superficial e estrategicamente enraizada no inconsciente coletivo, adaptadas às mentalidades antagônicas, criadas pra dar a ilusão de que se muda alguma coisa desse jeito.
Os banqueiros, em suas fortalezas, dão risada.
Não é só não votar, é não ter patrão nem empregado, é detestar ostentação de luxos e consumos "de elite", é não desejar mais do que se precisa, é ter vergonha de privilégios da riqueza, é respeitar o modo de ser dos outros, é olhar com igualdade mesmo pras diferenças. É querer pouco e reconhecer a própria pequeneza diante do todo e grandeza diante de si mesmo. É gostar do respeito alheio, mas não abrir mão do próprio. É ouvir a própria consciência acima da própria conveniência. Essas são algumas posições que aplico em minha vida. Sem querer posar de exemplo ou dar conselho a ninguém.
Não é o que acho certo, é só o MEU certo.
Cada um com sua própria consciência. E sem cobranças."
(Eduardo Marinho, um dos mais instigantes pensadores brasileiros, um verdadeiro subversivo)
sábado, 24 de agosto de 2019
Desigualdade crescente
DESIGUALDADES DE RENDA NO BRASIL E NO MUNDO
"Desde a década de 80, a desigualdade de renda aumenta em quase todo o mundo, mas com velocidades diferentes. É a conclusão do relatório “World Inequality Report 2018”. O estudo aponta que as variações na desigualdade em economias com graus de desenvolvimento similares evidenciam a importância das políticas públicas e das instituições.
Em 2016, a participação dos 10% mais ricos no total da renda nacional correspondia a 37% na Europa, 41% na China, 46% na Rússia, 47% nos Estados Unidos e Canadá, e em torno de 55% no Brasil. O Oriente Médio é a região mais desigual, na qual os 10% mais ricos detém, em média, 61% da renda total.
O estudo classifica o Brasil entre os países da “fronteira da desigualdade”, um termo que engloba os países em que a desigualdade se manifesta de forma mais intensa, o que inclui a Índia e a África do Sul.
Diferentes dos Países Desenvolvidos, principalmente os da Europa Ocidental, países como o Brasil não passaram por políticas voltadas para o bem-estar social e o pleno emprego, que caracterizaram o pós-guerra. Os ditos anos gloriosos do capitalismo, da década de 50 a 80, no qual as economias desenvolvidas cresceram de forma acelerada com redução das desigualdades.
O relatório destaca a diferença do ritmo do aumento das desigualdades entre os Estados Unidos e os Países da Europa Ocidental, que até a década de 80 tinham níveis similares, com o 1% de renda superior com apropriação de 10% da renda total. Em 2016, na Europa Ocidental a participação subiu para 12%, e nos Estados Unidos o 1% mais rico passou a capturar 20% da renda total.
Em termos comparativos, segundo o relatório “Bem Público ou Riqueza Privada?”, divulgado pela OXFAM no início do ano, na América Latina e Caribe a parcela de 1% mais rica detém, em média, 40% da riqueza total. No Brasil, o 1% mais rico detém 27,8% da renda nacional.
Dados da pesquisa “Rendimento de todas as fontes” (2017), elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelaram que os 10% da população com os maiores rendimentos ficavam com 43,3% do total da renda. Enquanto os 10% menores rendimentos detinham apenas 0,7% da renda.
Diferente dos países na “fronteira da desigualdade”, que como o Brasil sempre tiveram uma alta desigualdade de renda, os países da Europa Ocidental e Estados Unidos vem ampliando a desigualdade a partir de 1980, mas por que em diferentes ritmos?
O relatório “World Inequality Report 2018” explica que a ampliação da desigualdade de renda observada nos Estados Unidos é em grande parte determinada pelas expressivas desigualdades educacionais, combinadas com alterações no sistema tributário que o tornaram menos progressivo. Enquanto na Europa Ocidental, no mesmo período, ocorreu um declínio menor na progressividade do sistema tributário, políticas educacionais universalizantes e fixação de salários de base que preservaram a renda de grupos de baixa e renda média. Outro fator determinante foi a transferência de riqueza pública para o setor privado, que ocorreu de forma mais acentuada nos EUA.
Em estudo recente da Fundação Getúlio Vargas (FGV), “Escalada da Desigualdade”, aponta que há quatro anos a desigualdade de renda não para de subir. Enquanto a renda do trabalho da metade mais pobre da população caiu 17,1%, a renda dos 1% mais ricos subiu 10,1% e a renda da classe média (posicionada entre os 40% intermediários) teve queda de 4,2%.
No enfrentamento das desigualdades de renda, o relatório “World Inequality Report 2018” destaca a importância de políticas de renda, sistema tributário progressivo, o acesso democrático ao sistema educacional, mas combinado com políticas de fixação de salário mínimo que possibilitem o melhor ingresso no mundo do trabalho.
No Brasil, com uma desigualdade crônica que se agrava com a estagnação econômica, as políticas preconizadas para o combate às desigualdades de renda, são ao mesmo tempo essências a retomada do crescimento econômico."
sexta-feira, 23 de agosto de 2019
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