segunda-feira, 3 de maio de 2010

O Trabalho dignifica o Homem...

“Não existe trabalho ruim, Chiquinha!
O ruim é trabalhar...”
Sabedoria do "Seo" Madruga, no programa de TV preferido do meu pai (de 83 anos): "Chaves"

domingo, 2 de maio de 2010

"Se eu quiser falar com Deus" - 2

Depois de uma quinzena maravilhosa na Bahia - Morro de São Paulo e Chapada Diamantina - aproximava-se a hora de voltar. Estávamos em Lençóis - charmosa pedra preciosa da Chapada - em pleno domingo à tardinha. Muita gente pelas ruas - estrangeiros, brasileiros, locais - nos barzinhos, nos restaurantes, nas lojinhas - ou só passeando a pé pelo calçamento antigo das vielas.
Também havia muito movimento de jovens porque uma igreja evangélica realizava ali um encontro jovem da região. Era possível ouvir a voz do dirigente e o som das músicas cantadas pelos participantes no recinto ao ar livre onde acontecia o encontro.
Eu e Elaine, sentados na sarjeta, curtíamos música brasileira cantada por um jovem em um barzinho, ao som de um violão. Outras pessoas também.
Comecei a pensar sobre a distância que havia percorrido na vida. Quando adolescente, eu participara de encontros de jovens como aquele. Pensei que devia sentir culpa por estar "curtindo" em pleno domingo em lugar de participar do "culto" religioso ali perto.
Sobrepondo-se ao meu raciocínio veio uma sensação gostosa por estar ali, uma impressão de "belonging" - de "fazer parte de" - que me aproximava do artista cantando Milton, Djavan, Gil, Marisa; me aproximava dos turistas estrangeiros que ao meu lado ouviam as canções, dos locais que serviam animados as mesas postas na calçada, dos casais que trocavam comentários alegres e apaixonados.
Eu senti que estava no lugar certo; que ali, por mais incrível que me parecesse, eu fazia o meu culto de adoração a Deus, grato pela vida, pela natureza, pelas pessoas, pela arte, pela companhia da Elaine, pelo privilégio de ter conhecido um pedacinho do céu chamado Chapada. Ficou claro que não precisava me separar, me isolar, me diferenciar, me excluir da humanidade para falar com Deus. Ele estava ali, comigo, ouvindo a música, curtindo ver as pessoas curtirem a vida com alegria e simplicidade, longe da violência, do tumulto, da ganância, da idolatria da sociedade globalizada, obcecada pela produção e pelo consumo.
Fiquei arrepiado. Estaria eu enganado? Hoje, quando relembro aqueles momentos, escrevendo este texto, ainda sinto que não. Não me enganei: Ele falou comigo e eu com Ele!

sábado, 1 de maio de 2010

Navegando

A leitura feliz de "Navegação de Cabotagem", do mestre Jorge Amado, tem-me remetido a fatos do meu passado e me dado vontade de retomar os textos de "O Tempo Passa...".
Para os jovens pode parecer ridículo e supérfluo, mas para mim, essas lembranças evocadas são puro deleite, mesmo quando renascem dores e sofrimentos do passado. Passaram, já não podem me atingir, e lembrar delas agora é mais prazer do que dor. E as alegrias antigas alegram-me outra vez com o vigor de piada nova.
Talvez essa seja a maior vantagem de uma vida longa: tanta coisa para relembrar!!!

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Ilusão

Tem dias que eu me sinto como a Annie Lennox nesta música do Eurythmics:
"Hey hey, I saved the world today
And everybody's happy now
The bad thing's gone away
And everybody's happy now
The good thing's here to stay
"
Mas é ilusão. Eu não tenho como salvar o mundo, e mesmo se tivesse, não saberia se o mundo vale a pena ser salvo. Por enquanto, estou tentando me sentir a salvo, me manter acima da linha d'água, o que não é fácil... 
Ei, ei, salvei o mundo hoje
E todos estão felizes agora
As coisa ruins foram embora
E todos estão felizes agora
As coisa boas vieram pra ficar.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Socialismo e capitalismo, farinhas do mesmo saco?

"Toda fé política sustenta, muito sensatamente, que o único modo de se garantir e exercer a justiça é pela mediação de uma instituição; discordam entre si apenas a respeito de qual é a receita institucional correta. Para o socialista, o sistema é justo porque ninguém pode ficar rico; para o capitalista, o sistema é justo porque qualquer um pode enriquecer. Ambos os projetos, portanto, estão fundamentados no medo coletivo da injustiça (medo da injustiça social, para o socialismo, e medo da injustiça pessoal, para o capitalismo) e no desejo condicionado pelo que o sistema toma como admirável (em ambos os casos, a produção e o consumo)."

Trecho do texto de Paulo Brabo, que leio com queijo caído, por sua claridade, profundidade e simplicidade.

terça-feira, 27 de abril de 2010

O estádio do Pacaembu - SP

Ver imagem em tamanho grandeO mais tradicional estádio de futebol da cidade de São Paulo completa 70 anos.
A primeira vez que fui ao estádio, ele não tinha mais do que 20 anos. Eu era garoto, morava perto, dava para ir a pé. O estádio é muito charmoso, tem uma arquitetura elegante - naquele tempo mais, por não ter ainda o horroroso "tobogã" ao fundo - e o bairro onde foi construído é elegantíssimo. O texto abaixo foi publicado um tempo atrás no meu blogue "O Tempo Passa".
Republico hoje, como homenagem ao velho estádio:

Desde moleque ainda, torcia para o Santos F. C., o time de Pelé, Edu, Toninho e cia. Meu tio era corintiano “roxo”. Um dia ele passou em casa à tarde para me levar ao Pacaembu, próximo de onde eu morava, para assistir ao clássico "Santos X Corinthians". 
Chegamos no estádio perto da hora do jogo, e por isso não havia mais lugar pra sentar na torcida corintiana. Estávamos em pé, no alto das arquibancadas atrás de um dos gols, quando um grupo acenou do meio da arquibancada, mostrando que poderiam me acomodar entre eles. Fui pra lá e fui recebido amigavelmente, mesmo após dizer que era santista.
Disseram: Então, ele fica com o bolãoEram cinco amigos, e haviam feito uma aposta: cada um sorteou um número de 7 a 11; quem tivesse o número do atacante que marcasse o primeiro gol, ganhava o dinheiro.
Peguei o dinheiro e passei-o para um dos rapazes. Ele me olhou desconfiado e disse: “Guarde-o. Você vai dar o dinheiro para quem tiver o número do artilheiroE eu respondi: Pois é, você não tirou o número 10? Tome, o dinheiro é seuTodos deram risada, e procuraram não levar muito a sério o que eu dissera.
Começou o jogo. Passaram-se uns 15 minutos e um jogador santista leva a bola para a linha de fundo e centra. A bola vai para o centro da área, e lá, no meio da zaga corintiana, sobe um jogador negro, de uniforme branco, número "10" às costas. Com leveza e precisão, cabeceia a bola. Esta passa pelo goleiro que se atira desesperada e inutilmente em sua direção e vai parar no fundo da rede. É goool... de Pelé!!!
Virei para o portador do número 10: “Não disse que o dinheiro era seu?

"Se eu quiser falar com Deus" - 1

No mundo há muito mais crentes do que ateus. A maior parte das pessoas, sejam de onde forem, afirma crer em algum ser divino, em algum deus, enfim.
Falar com deus pode ser fácil ou difícil, depende da religião que você professa. Ouvir Deus é bem diferente. Para alguns, deus fala por textos sagrados antigos. Para outros, em cerimônias religiosas. Outros ainda, ouvem deus pela boca de seus líderes - talvez o meio mais perigoso - e outros, internamente, no coração e na mente.
Deus nunca falou comigo. Não de uma forma direta, como propôs Woody Allen em um de seus filmes: "Por que Ele não prova para mim a sua existência, digamos, depositando um milhão de dólares em uma conta com meu nome na Suíça?"
Aceito, com um pé atrás, que Deus possa ter dado muitas e boas instruções. Na Bíblia, por exemplo. Mas não são para mim, individualmente. São orientações que se aplicam a muitos e em diferentes épocas. E são de difícil compreensão.
Dizer que ouviu, leu, "recebeu" uma mensagem divina é uma ousadia e insensatez imensas: ninguém pode dizer com certeza "Deus falou comigo", pois ninguém é Deus. Como saber se não foi, na verdade, apenas uma ilusão, um produto da mente?
Mas, certa vez, em plena Chapada Diamantina, tive a nítida impressão que sabia o que Deus queria de mim.
Conto mais tarde... esperem!

terça-feira, 20 de abril de 2010

Poeminha político-eleitoral

Inspirado pelo "Soda Cáustica", lembrei-me de um versinho muito popular entre os bebês de 3 meses a 1 ano.
Você o declama enquanto faz um vai-e-vem, segurando as mãos nenê, ele no colo voltado para seu rosto, de forma que dá a impressão dele cair de costas para em seguida, ter a impressão que vai bater o rostinho no seu:
Serra, serra, serra dô; serra o papo do vovô
Serra, serra, serradinho; serra o papo do rubinho
Serra, serra, serradão; serra o papo do rubão!
As crianças se derretem de pura diversão, a mistura do medo de cair para trás com a graça de sentir os rostos se aproximarem rápido. 

(Fora eu um analista político, diria: Serra, serra, serradê; serra o papo do PSDB!)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Colírio para a alma

Vez em quando eu passo por Astor Piazzolla e seu deslumbrante "Adiós Nonino".
Forte emoção, olhos marejados, um aperto no peito retratam o que sinto e me fazem bem... muito bem.
Se quiser sentir o que sinto, não ouça com os ouvidos, ouça com o coração:

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Meu cemitério

"Quando um tipo vai além de todas as medidas e de fato me ofende, já com ele não me aborreço, não fico enojado ou furioso, não brigo, não corto relações, não lhe nego cumprimento. Enterro-o na vala comum de meu cemitério - nele não existem jazigos de família, túmulos individuais, os mortos jazem em cova rasa, na promiscuidade da salafrarice, do mau caráter. Para mim o fulano morreu, foi enterrado, faça o que faça já não pode me magoar."
O mestre Jorge Amado em "Navegação de Cabotagem", ed. Record, 1992.