quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Nunca

Nunca antes um texto havia me feito tão mal, por descrever, nua e cruamente, o que se passa no mais íntimo do meu ser, e que escondo de todos e até mesmo de mim. Com todas as letras, emoção e beleza que nossa língua pode conter.
Mas o Paulo Brabo escreveu, e, pior, eu li. E já não posso suportar o ímpeto de dizer: É isso!!!! É isso mesmo!!!
Esta tênue esperança, qual chama de vela que qualquer um pode apagar me impele a partilhar este texto aqui, leia-o quem quiser e saiba que é exatamente assim que me sinto.


Qualquer um
Estocado por Paulo Brabo sob a rubrica Manuscritos

Outro dia o filho que não tenho, e que já é grandinho o bastante para fazer esse tipo de pergunta, perguntou-me, olhando para o mundo, se existe esperança.
Era época de Natal e ele queria que minha resposta o enchesse de inspiração e de bons sentimentos; uma resposta que o capacitasse a abraçar o futuro com olhos brilhantes e pés otimistas. Queria, em outras palavras, uma mensagem.
– Esta, meu filho, é uma resposta que palavras não podem dar – menti o menos que pude, e invoquei não sei de onde um sorriso.
Quando ele for mais velho direi que não, que não há qualquer esperança. Andaremos lado a lado por um caminho no meio da tarde e confessarei que não enxergo esperança no mundo, nas religiões e instituições e, ainda menos, em mim mesmo. Direi que as belas mensagens otimistas que os homens trocam em ocasiões solenes são distrações que não chegam nem de perto a alterar a dura malha da realidade. As pessoas não se tornarão mais generosas, menos mesquinhas e mais iluminadas, porque vivi quarenta anos e a cada dia me distancio mais, eu mesmo, desse ideal ilusório.
Ele me olhará nos olhos e, sem dizer nada, abrirá um meio sorriso, porque verá que, embora não exista esperança, embora eu esteja convicto de que não há, cultivo ainda assim alguma.
Se tudo der certo, com o passar dos anos ele aprenderá a guardar a esperança como eu: como quem tem vergonha de permanecer criança e continuar olhando com fascinação para a chama de uma vela que qualquer um pode apagar.
Sorocaba, SP - Brasil, Natal de 2008

6 comentários:

Lou Mello disse...

Sei que os caras são católicos e tudo mais, mas aprendi o valor de manter a chama acesa com eles. Falo do Focolares. Pena que a mentora deles foi uma das grandes perdas sofridas pela humanidade, este ano, falo de Chiara Lubisch.
Bom você e eu replicarmos os textos do Brabo, assim a rapaziada e a moçada podem sentar a pua neles. :) Com todo respeito, claro. Quero ver alguém conseguir não gostar de algo dessa qualidade e sensibilidade. Boa meu!

Dona Sra. Urtigão disse...

Não há esperanças de que o outro mude, que diminua seu egoismo, mas e nós mesmos, tambem estamos assim tão distantes de ...nós mesmos ?
Quando eu estava no fundo do poço... melhor, no fundo de uma fossa, pois poço tem água limpa, mas fundo mesmo, sem esperanças, desejando a morte e sem coragem nem para antecipá-la, surgiram em meu caminho duas meninas em situação tão desesperadora quanto a minha. Tão ? Acho que mais, pois nem tinham ainda visto algo bom na vida ( uma me disse, aos 5 anos "eu achava que era tudo só assim"). Eu, sem condições nem financeiras e principalmente psico-sociais optei, um pouco por não ter opção, adota-las e deu muuuito trabalho e ainda dá, mas nada me fez mais bem do que isso. Como fez tambem com certeza bem a elas. Não há esperanças ?
PS; apague após ler.

Rubinho Osório disse...

Lou, nem é questão de gostar, mas de identificação visceral com as palavras, as idéias, os sentimentos.
Sra. Urtigão, posso, por respeita-la tanto, apagar este comentário seu. Mas, respeito mais a contribuição que voce faz com ele; contribuição sincera, profunda e bela. O comentário fica.

Ana disse...

Rubinho,
boa! deixa sim o comentário da sra.urtigão. Não queremos só as belas palavras, as necessárias também.
O sentimento de desesperança é humano, nós mesmos os eternos insatisfeitos. Mas, lí um livro simplesinho um dia, chamado "Ainda resta uma esperança" de J.M.Siemmel. Alí fala isso tudo que o Paulo Brabo fala, sob a ótica de quem ainda espera. Desse dia em diante, aprendí a esperar.
Forte abraço
(ps: a Aninha manda um beijo pro casal)

carmen disse...

No dia em que eu achar que não há mais esperança, é melhor deixar de viver... pois enquanto há vida, há esperança... e isto não é balela... se não é melhor eu mudar de profissão e deixar de ser enfermeira...

Ainda tenho esperança, se não tivesse, já teria dado um jeito de acabar com a minha vida...

E Jesus é a minha Esperança, não dá para abdicar dela!!!

Tato disse...

Creio firmemente que existe esperança para qualquer um.
Mas não para o mundo.

Paradoxal?